domingo, maio 27, 2001

Desenhar o cheiro daquela flor amarela lá fora. Sair na chuva de boca e braços abertos. Rir de dois problemas, talvez três. Fechar os olhos ao sol forte, pálpebras relaxadas em cortina vermelha. Investigar o paradeiro da formiga com a folhinha, de qualquer coisa muito leve levada pelo vento ou da ponta do arco-íris. Deixar o vento embaraçar os cabelos. Ouvir o barulho do mar na concha, e acreditar. Brincar de 'bem-me-quer, mal-me-quer', e acreditar só no bem-me-quer. Levar pra casa a areia do mar na pele e as flores nos olhos. Embriagar-se de água de coco e riso. Beijar como quem bebe, abraçar como quem dorme. Entregar-se. Render-se a si mesmo. Assistir reverentemente ao balé das nuvens. Caçar grilos entre as folhas de grama. Chorar sem pena, gargalhar sem censura. Ver com as mãos e os olhos. Entender com a alma. Querer sem porquê.

segunda-feira, maio 21, 2001

Não era dor. Era muito choro, quase todo escondido, sempre que dava pra esconder. Choro tão fundo que não se sabia o fundo, escondido no escuro que sempre havia sido dentro, agora mais. Era um sentir pastoso de esforço e lentidão, um estar preso – e estar preso fora sempre tão aterrorizante, como naqueles sonhos da infância, de medos e gritos que não saíam, e braços e pernas que não moviam. Um tal sub-estar que o mundo todo era longe, lá em cima, e que não chamassem porque feria.
Querer era algo antigo. Não havia, agora. Havia o que é, e é. Então, que fosse, e consentia. Com – sentia – extrema consciência do querer que não havia. Lembrava-se ainda de quereres tantos e tão vivos que queimavam e luziam e se levantavam em ondas de quebrar e espalhar e derrubar e ser, ser, ser, ser em grito ou espasmo, mas ser. Quereres velhos, perguntava-se se mortos. E morrem?
Talvez fosse dor, sob todo aquele tudo sem nome cujo nome quase se lembrava, ou inventava. Talvez fosse até grito e espasmo, mas só lá, sob tudo, fundo. E era escuro e parecia tanto com o de onde o choro vinha, então conheceu mais um braço da verdade. Sim, tinha braços, e de fato era só o que se podia ver da verdade, os muitos braços. Sua verdade de braços não tão belos quanto fortes, indestrutíveis, mas retráteis. Lá estava.
E não o queria ver, não realmente. Era feio, e não sabia por quê, já que tão perfeitas eram suas formas. Ainda assim, desviou o olhar, mas foi porque tinha o péssimo costume de partir com o olhar e tocar nas coisas, ferindo-as, ferindo-se. Ah... ar... amaldiçoou a coisa repetida e monótona de voltar sempre ao mesmo poço de ar pastoso , aquele de esforço, lentidão, e vestígio de dor funda e escondida. Encolheu-se de novo, procurando conforto na superfície de si . Fechou os olhos para deter o olhar até da Alma. Adormeceu um sorrir triste, de novo.

terça-feira, maio 15, 2001

Tudo é difícil. Árido, ao menos. Tudo de bom tem um travo ruim, como daqueles cortezinhos na língua quando a gente come abacaxi, ou o ardido na pele depois de um fim-de-semana na praia. Nada neste mundo é totalmente bom. Tá, nada é totalmente ruim também, mas disso eu falo outro dia.
Lembro de uma 'alegria difícil' que eu li da Clarice Lispector, aquela das palavras todas encharcadas de verdade, que levantam fascínio ou incômodo, dependendo do gosto do freguês. Ela - a alegria difícil - deve ser fruto de um encontro muito profundo consigo mesmo, e nem isso se sabe ao certo. Mas é assim, dual, essa tal de humanidade... tanto que não consegue ser sem ser também o oposto, pensa bem...
A óbvio-dual-humanidade faz doce com um pouquinho de sal, crê com um pouquinho de dúvida, despreza com um pouquinho de admiração e ama com um pouquinho de ressentimento. Coisa complicada esse tal de eu...
E devo estar repetindo alguém. Mas - oh, que falta me faz o monte de coisas que não li - ainda que não original, ou nem mesmo verdadeiro, garanto que é sincero! ;o)
Deve ser por isso - a dualidade - que a fé é tão difícil. Deve ser mais por isso ainda que a mais difícil de todas é a fé em si mesmo.

segunda-feira, maio 07, 2001

Era preciso acostumar. Não, era melhor aceitar. Aceitar resignadamente que havia música, e riso, e vida, apesar do escuro que era dentro. Mas a essa altura já se ocupava de outra coisa, uma idéia que lhe fugia dos olhos como um inseto, zumbindo. Já não lhe era claro se valia ou não a pena recupera-la, já que era algo como um saber, e tanto lhe doíam os saberes. Mas havia música, toda acesa e inadequada, e riso incômodo, que não se importavam com o seu desprezo, e fluíam, tépidos, acariciando ousados os ouvidos e a alma.
Fechar a janela? Era mesmo provável que ao fechar a janela não lhe chegasse mais o som aos ouvidos. Mas não seria suficiente, já que o som ainda estaria ali, no silêncio, música e riso, e escuro dentro. Como se música e riso lhe celebrassem a escuridão, sem no entanto ameniza-la. Desejou por um momento ser menos, saber menos. Era provável que todo acostumar-se, todo aceitar, fluíssem melhor sobre um saber menor. E as idéias fugindo – ou chegando? – num esvoaçar farfalhante como nunca antes havia ouvido. Ventavam-lhe no rosto lembranças velhas, planos, perguntas, palavras desconexas, mas cheias de um sentido que não podia reter entre as mãos. Voava-lhe o sentido. Já não o sentia.
Até o limite, resistia. E escondia cuidadosamente a sensação de que era capaz de resistir além dele. Afinal, que são limites? Lembrava-se claramente de tê-los estabelecido, portanto, móvel que era, bastava faze-los também móveis, e seria tudo serenidade e correção. Resistia à música e ao riso como a uma propina, e ilicitamente a invadiam, e já eram marca de nascença. Tinha ao menos um silêncio íntimo, forjado, presunçosamente inerte. Ao menos ele era seu, e o escuro. Mergulhou então no silêncio como quem explode e era tão mínimo e tão seu que todo o resto quase não existia. Celebrou assim uma solidão única e blindada, cheia de dorezinhas miúdas e miúdas vitórias. Via-se, finalmente. Era, no silêncio e escuro. Ainda que não houvesse a quem culpar.
Esperou, mesmo sem saber ao certo pelo quê.
Sabia não haver nada mais fiel que o tempo, e passou. Música e riso eram perto, passando num fluir espesso de folia de rua, escorrendo para longe, morrendo aos poucos até cessar. Era difícil saber se o cessar lento era da música ou do ouvido. Silêncio dentro e fora, finalmente. Já era hora de chorar.

quinta-feira, maio 03, 2001

Comprei um caderno vermelho. Na verdade ele de vermelho só tem a capa. Suas folhas são brancas com linhas pretas (azuis?) muito finas e eqüidistantes. Mas gosto de chamá-lo de vermelho.
Vermelho pra mim foi sempre cor de ousadia. Até nas roupas. Primeiro a indecisão, o abrir mão da discreção, cuidadosamente construído, depois o mergulho, e o não querer outra vida. Sou assim com ousadias, o medo vira vontade num piscar de olhos.
O caderno vermelho era para o óbvio: Escrever. Escrever o que quer que fosse. O mais óbvio dos escreveres. Eu precisava. Havia passado semanas fugindo de minhas próprias letras, eu que tanto dependo delas, e tanto sei disso. Vi-as ainda aqui, esperando, em algum lugar, aqui. Vi que de alguma forma era possível resgatá-las. Ousar. Não me ocorreu de início a necessidade do ousar para que eu me entregasse a elas de novo. Agora vejo o tamanho da coragem que me era exigida.
Para algumas pessoas, o escrever é de um tal abandonar-se que quase se parece com enlouquecer. Antes isso não era importante, o enlouquecer. A loucura era bela e sedutora, e eram tão mais altos os meus vôos quanto mais eu me abandonasse à sedução da loucura. Ainda é assim, ainda sei que é da loucura que partem os vôos, mas temo a ambos. Terão sido os tombos?
Ainda bem que não aprendi a fugir do que temo...
Tenha sido o que tiver sido, passei muitos dias sem as letras. Lendo, alimentando-me das letras alheias, mas sem dar voz às minhas próprias. Não quero mais assim, não quero estar protegida. Quero palavras e riscos. Letras, vôos e tombos. Minhas palavras são o melhor eu que há, não quero estar longe delas. Quero ousá-las, ousar-me em todos os meus arriscados e magníficos tons de vermelho.

sábado, abril 28, 2001

Perdi de vista as palavras, e as temi. Já sabia que sou e tenho apenas palavras e me entrego se as entrego. Então olhei para dentro do eu-palavras que sempre fui, e tive medo de que, batendo em terra seca com tamanha força, o morrer que é se dar em palavras fosse tão raso ao solo em que se lançasse, que eu me tornasse nada, ainda mais do que antes.
Alma se escondeu, ou ao menos tentou...
Só que havia olho e ouvido de roubar palavras. Um roubar tão doce que levou Alma junto, eu-palavras em morte pequena e doce, de semente em solo fértil, úmido. Calor. Temi ainda. Neguei muito, quase tudo. Escaparam uns poucos sonhos velhos, alguns ais, eu-palavras secas e frágeis. Eu-palavras de vida latente oculta, medo e não.
Havia olho e ouvido, mãos, pele, "eu quero", "eu não sei", "eu preciso". Brotou à força Alma. A força-Alma que nem se sabia viva. Viver não é afinal o mesmo que sentir frio.

segunda-feira, abril 02, 2001

Diz que viver não é crime. Mas a vida toda procuramos cúmplices.
Cúmplices são estranhos múltiplos multiformes difíceis de encontrar. Encontrados, capturam-se facilmente. Porque capturam quando/enquanto são capturados. Podem estar em qualquer lugar, ingógnitos ignorados, anônimos. Estranhamente o reconhecível do cúmplice não se vê, ouve ou percebe nele. Valem em quem o encontra os sintomes de cumplicidade, grandes e claros.
Vale olhar fácil nos olhos em mão dupla.
Vale atrair-se tolo e infantil por banalidades, algumas esquecidas. Vontades estranhas de banho de chuva, estórias da infância, fruta madura, cheiro de mato, bobagens afins.
Vale esquecer de súbito toda máscara. Um ser-eu-mesmo violento e inexplicável que assusta/alivia. Momento de verdade quase feia, morna e confortável.
Vale perder exatidões, especialmente de tempo e espaço. O tempo pára e voa no mesmo instante, a distância é milímetros, braços, abismos e milhas, no mesmo lugar. Exatidões renitentes imperdidas perdem a importância e são nada agora, já que tudo é agora.
Vale o maior sintoma, e acompanha os outros todos. Um receio incômodo pontiagudo de se estar adormecido em vez de em vigília, e em vez de vida ser sonho, tudo, algum tipo de brincadeira, filme, febre ou jogo, onde vale tudo, menos acordar.

terça-feira, março 27, 2001

Era inevitável. A imagem vinha-lhe à mente tão logo ouvisse ou pensasse na palavra. Seria assim com todo o mundo? Ouvira dizer que não. Mas eram poucas as palavras que não lhe produziam imagens na mente. SEGUNDA-FEIRA era uma sala cinzenta, meio enfumaçada, na qual se entrava depois de passar por duas outras muito claras e arejadas, o SÁBADO e o DOMINGO. ESQUERDA era o pedaço maior do muro da escola primária onde estudara, que era cortado, um terço à direita, por um enorme portão de ferro.
Assim virava tudo imagem, e por isso mesmo - sorte das sortes - virava tudo metáfora. Escrever/descrever coisas ficava fácil então, mas nada mudara no tocante a compreendê-las. Entretanto, levando-se em conta o mundo de coisas assumidamente incompreensíveis entre as quais vivia desde há tanto tempo, quem o desejaria, afinal?

Era aquela imagem especialmente curiosa. Um polvo enorme, cinza-azulado, de enormes tentáculos gelados cheios de ventosas, muito móvel, revolvendo a água e produzindo ondas de bolhas minúsculas. Nos dois olhos uma expressão muito séria, como aquelas que se assume quando se pretende provar algo a alguém. Impossível saber o que deseja o polvo, ou por que se move freneticamente, ou onde vão parar todas aquelas bolhas. Era aquela a imagem da palavra POLÊMICA.

Ao contrário do que pudesse parecer, não tinha aversão a polêmicas, nem costumava fugir delas. Mas, definitivamente, não pagava por uma. Ainda não havia visto um polvo (na verdade não vira muitos polvos na vida, e quase todos os que vira estavam mortos) que correspondesse em periculosidade à apreensão que a espécie às vezes despertava. Polêmicas, ao contrário, geravam mudanças às vezes. Algumas boas, algumas graves. Mas na sua maioria grande e barulhenta, elas costumavam produzir em quantidades consideráveis apenas adrenalina.

Mas, sabe que os polvos lhe pareciam mesmo uns bichinhos felizes?
Escrevia/descrevia polêmicas, em vez de entrar nelas. Perguntava-se se de fato não entrava, pois elas tanto lhe tomavam o pensamento, tanto divagava e enfrentava-se internamente, com tamanha intensidade, em função dela, que chegava a ser físico o seu cansaço. Era desse jeito que as amava.
No cansaço adormecia, adormecendo mergulhava em águas fundas e geladas, debatendo-se, muito móvel, revolvendo a água e produzindo ondas de bolhas minúsculas...

segunda-feira, março 26, 2001

Tive a impressão de que o estrondo das muitas antigas palavras caindo no chão fosse produzir alguma alteração no cenário, ou em minhas sensações, como o acordar de um sonho. Enganei-me. Não houve estrondo. O ruído de minhas palavras era débil como o som de um riacho, e me produzia uma urgência doída como de um parto, mas de lágrimas. Saltavam-me zelos e dores, e era contê-las esforço e cansaço.

(Nesse momento foi quase certeza a impressão outra que eu tinha, a de que minha aparência não era humana de verdade. Às lágrimas sorri, e meus indicadores se se juntaram diante dos olhos. Mesmo assim não os vi.)

Seguia o som débil de riacho-verbo de mim, e era tudo úmido. Os seres esverdeados eram agora ouvidos atentos, diligentes, e ao mesmo tempo silenciosos e chuvosos de palavras. Uns abriam muito uns olhos brilhantes, os de dentro, os de se mostrar - verdade que vinham os espelhos impertinentes contumazes, perturbadores da avidez de se fazer ver ao outro antes de a si mesmo, mas para espantá-los bastava que não se lhes dirigisse o olhar - e iluminar, e era neles uma beleza muda e inquieta e torta e real. Esse abrir olhos de se mostrar podia ser doloroso, eu sabia de dentro, então estes que o faziam eu os via grandes e fortes.

Cessou o riacho, recolhi palavras e observei. Era o tempo, no fundo, uma esteira brilhante que se movia sempre e sempre igual. Alguns subiam nela, outros não. Um não muito grande tentava ultrapassá-la deslizando, mas flutuava e voltava.
Sabia-se muito naquelas terras. Eram grandes os olhos e os ouvidos, sempre ávidos, e mãos vertiam palavras. Vez por outra acoplavam-se olhos ou ouvidos a crateras no chão, como investigando. Vez por outra agitavam-se dedos prenhes de letras logo depois, e eram palavras secas. As palavras úmidas de riacho-verbo - felizmente alguns também as tinham - eram aquelas que emprenhavam inteiros corpos-almas, as vidas, por muito. E às vezes vinham ornadas de sorrisos, ou de lágrimas sólidas muito redondas, ou daquele brilho de luz forte, olhos de se mostrar. Eu bebia como quem ouve, e lamentava que o melhor de tudo fosse de tão poucos .
Sorri de medo de não voltar mais à humanidade.

sábado, março 24, 2001

Eram verdes. Não, verdes não chegavam a ser. Eram esverdeados, feito algumas veias discretas que se insinuam sob pele morena. A mim me pareciam humanos, embora não tivessem em sua aparência nada de humano exceto os olhos. Sim, pareciam humanos usando fantasias estranhas, mas eram menores, alguns.
Da minha própria aparência naquele mundo eu não tinha idéia. Não que não houvessem espelhos. Havia muitos, e muito grandes. Espelhos animalizados que muitas vezes se nos perseguiam o deslizar – é, deslizávamos em vez de andar, como sobre uma total ausência de atrito, era sem dúvida um mundo de facilidades – colocando-se-nos à frente como que em atitude de desafio. Mas felizmente eram líquidos, e a maioria lhes atravessava o corpo sem olhar. Eu pensava que neste mundo os espelhos correspondiam aos cãezinhos.
Como quase todos ali, não olhava o espelho, nem a mim mesmo. Não ousava, gostava de imaginar que não me parecia com aqueles serezinhos esverdeados e barulhentos. Observava seus olhos duplos. Não eram pares de olhos, mas olhos dentro de olhos. O de fora, ressecado, enorme, muito aberto e rígido, era de ver, ávido em conjecturas, múltiplo de montar quebra-cabeças apenas olhando, eu achava. O de dentro era de um brilhante muito aquoso, transparente, mas tão pequeno que algum desatento seria capaz de ignora-lo. Eu o via apenas por causa da muita luz que emitia. Era a única coisa bela ali. O resto era no máximo engraçado.
Traziam coisas muitas nas mãos, que eu não conhecia. Não tinham soberano algum, ou normas estabelecidas, mas havia relativa paz. Sorriam, descobri depois, juntando dois dedos indicadores na frente dos olhos. É que não tinham boca. Falavam com os dedos, também. Inexplicavelmente eu os compreendia.
Pediram-me coisas. Que seriam? Sem olhar, larguei-lhes aos pés o que eu trazia nas mãos , que eu pensei que fosse nada. Eram palavras, uma enxurrada. Sorriram todos, e foi só então que me senti em casa.

segunda-feira, março 19, 2001

Era uma vez um pássaro que não voava. Não voava porque havia aprendido desde cedo que era incapaz de voar. Ele achava que as próprias asas eram tão inúteis... Achava que a própria vida era tão injusta... E simplesmente não voava.
Era uma vez um pássaro que não conhecia o céu. Ele via o céu, via os outros pássaros no céu, mas só via... e tudo de longe. E era tamanha a sua certeza de que jamais voaria, que não havia no mundo um pássaro sequer que pudesse ensiná-lo a voar.
Mas alma de pássaro voa longe... voa alto! Não tem medo, nem complexos; não tem dor, nem limites! Então o pássaro chorava, porque alma de pássaro, quando voa, não carrega o corpo, e volta logo, se esconde e se lamenta, e por isso ele sentia muita dor.
Até que um dia ele conheceu um anjo...
O anjo, por ser anjo, fez com que o pássaro olhasse as próprias asas e as amasse. Fez com que as abrisse e as movesse... e o pássaro acreditou que podia...
Só que anjo voa no céu dos anjos, e pássaro no céu dos pássaros. Apesar de confiar no anjo, o pássaro sabia que, se fosse até o céu dos anjos, não seria mais um pássaro verdadeiro. E não foi, e temeu. e sofreu o medo de nunca mais voar!
O anjo, por ser anjo, disse ao pássaro: "Não tenha medo: Sou eu que estou aqui com você!", e o levou ao céu dos pássaros, num vôo simples e pobre de sensações para um anjo, mas alucinante e inesquecível para aquele pássaro que não voava.
O vôo foi curto, rápido demais para o tamanho e a intensidade do que o pássaro sentia. Logo, logo, o anjo voltou ao céu dos anjos, mas o pássaro nunca mais foi o mesmo. Deste dia em diante, ele nunca mais deixou de voar, mas um vôo diferente, ousado, belo e peculiar. Ele então ficou conhecido entre todos os pássaros como "O pássaro com vôo de anjo".

terça-feira, março 13, 2001

Olhei Alma por um instante, será que também chorava?
Aflição de Alma era coisa sabida e certa e antiga. Era de sempre aquela inquietude, um grande apertado dentro, doído, explosão iminente e forte, que não vinha. Aquela intensidade de um algo que podia ser tudo ou nada, mas não era lágrima. Não lágrima visível. Havia muito que faltava a Alma, e eu sabia. Mas via pouco, ouvia pouco, e conhecia pouco. Éramos de rochas, eu e Alma. De vento grande , intenso e furioso, e chão duro. E o chão era raro, tanto que duvidávamos se existia.
E eu esperando, sempre. A cada viagem, cada visita, um muito de se ver, se repetir, como quem decora versos. Um muito grande de mim e de Alma, que era o mesmo. Mas Alma chorando era coisa nunca vista.
Era grito, espasmo, imobilidade fervente, barulho surdo, grade firme, revolta. Era Alma. A mesma. Serena de olhos retos luminosos, e verdades, e escuros tão expostos como o dia. Agora um quieto duro, aceso. Alma silêncio e fúria.
Mas o quase era maior que o sempre. O agora maior que o tudo. Silêncio e fúria em cores, peso de horas. De vidas. Dívidas de ir e de ser. Faltavam-nos sins.
Em silêncio e fúria era tudo não. E horas muitas e ar pouco, e palavras de se buscar com mãos e boca. E sedes, e dores. E limites sem lugar.. eram não-saberes antigos, esquecidos, emergindo do fundo de dentro, medonhos, velhos grandes imortais.
Misto de janela e espelho dentro, fundo e escuro, o lago. Alma pálida rede-emaranhada, cansaço, morte pequenina quase bela. Sorri buscando, grito invisível. Indizível. Não lhe via os olhos. Sabia-lhe olhos, gritos e lágrimas, sem ver. Silêncio e fúria.
- Desce! – Explodi em mil nãos, vagos inúteis. Era preciso, fui.
Frio escuro de novo. Silêncio macio de água parada, descendo, descendo, nem sol nem ar, descendo todos os nãos até o último. Alma no fundo, a mesma. Recente e viva. Presa quase triste. Corto-lhe redes com os olhos. Muitas sempre ainda agora.

segunda-feira, março 12, 2001

“A gente só tá pronto quando morre!”
A frase foi dita por um menino de seus quinze anos, em meio a uma aula que tinha tudo para ser teórica. Meninos de quinze anos são surpreendentes às vezes, e Alice sabia disso. Já não se surpreendia tanto.
Era uma aula de ciências. Ao longo de seus mais de dez anos em sala de aula, Alice havia aprendido que é possível estudar ciências em qualquer tema, e que por isso em uma aula de ciências ‘pode tudo’. Tudo é pertinente porque tudo é a vida, e é a vida mesmo o que se quer estudar. Falavam sobre reprodução.
O objetivo era comentar a fecundação, a evolução do bebê, a gravidez, o parto... Alice visualizava suas próprias gestações, enquanto exibia àqueles trinta pares de olhos arregalados os vidrinhos de formol contendo fetos. Ela não podia evitar o pensamento que zumbia em sua mente, o de que, caso aqueles fetos tivessem sobrevivido, seriam hoje mais velhos do que os seus próprios filhos.
Surgiu o questionamento a respeito de quando é que passa a existir um ser humano. Falaram em transformações, e no fato de que elas não cessam, desde o aconchego do útero até a maturidade, à velhice. Apesar do tempo e da experiência, nada pôde impedir que a própria Alice aprendesse muito, e de novo, com aqueles meninos de quinze anos. A gente só tá pronto quando morre.

terça-feira, março 06, 2001

Cada vez que se encontravam era um celebrar novo, de novo, do privilégio de se haverem conhecido. Como uma festa. Uma festa de palavras e gestos que ambos sabiam infinita, porque independia do que tinham e se baseava no que eram, cada um, para si mesmo e para o outro. Eram ilimitados nestes momentos, cheios de poderes mágicos.
Não. Não era paixão. Paixão é o sentimento que faz do outro um fim. Torna-o o objetivo final de todos os caminhos. Paixão desconsidera qualquer horizonte além do realizar-se a si mesma, e por isso é vazia. Paixão é fogo e explosão, mas ainda assim, paradoxalmente, fria, pq objetiva em vez d humanizar. É querer, puro e muito forte.
O que tinham era mais, era menos, era diferente. Era algo sem tamanho e sem nome, que elevava e arremessava cada um tanto em direção a si mesmo quanto ao outro e ao mundo, e que por isso mesmo os fazia grandes, sendo a grandeza o seu menor objetivo.
Palavras tinham muitas, mas as sabiam desnecessárias. Havia o olhar. Havia uma certeza de algo que não sabiam o que era, mas gostavam. Era um quê de conforto, um estar à vontade, um querer que o tempo não passasse para ficar ali, só entendendo que estavam juntos de uma forma muito mais do que física. E eram divagações, viagens, bobagens... Era não ter que dizer nada, era poder dizer tudo. Era leveza e densidade, deliciosamente alternadas, como um sorvete com calda quente.
O olhar era tudo. Era onde se entendiam crianças, e absolutamente livres. Gostavam de imaginar que tinham um vínculo tão seguro que mesmo que lhes fosse definitivamente impedido o encontro haveria em um algo do outro. Mas não era um pensamento romântico cinderélico, tipo ‘my heart will go on’, não. Era algo de antropofágico, de herança, de absorver o outro a cada troca, de ser um pouco o outro em idéias e pensamentos, simplesmente por achar nele espaço para sê-lo.
Eram amigos. Cúmplices. Amantes, eventualmente. Admiradores, sempre. Cultuadores quase silenciosos um do outro, em defeitos e qualidades. Sim , admiravam-se também os defeitos! Eram os defeitos, não seriam sem eles. Admiravam com alguma raiva, certas vezes. Mas respeitavam um ao outro, muito, extremamente. A noção dos limites do outro, que não tinham nítida, porque ninguém tem, era investigada e buscada a toque de dedos sensíveis e trêmulos. Cuidadosos, mais do que o necessário, mas verdadeiros, quase tanto quanto o necessário. Não havia hipocrisia. Eram, simplesmente. Por isso eram tão felizes nessas horas. Loucos e crianças. Completos.

segunda-feira, março 05, 2001

Hoje é seção tietagem, viu?
E não é que é legal esse negócio de link? ;o)

Mais legal ainda essa coisa de escrever...
E tem mais gente que acha, e gente legal!
Ando abestalhada com a quantidade e a qualidade do que se escreve internet afora. Amigos de chat, e-zines, blogs, gente linda e anônima (alguns nem tanto) dando o recado que nem 'gente grande'. Não vou falar hoje dos textos que recebo por e-mail porque ainda estou boquiaberta demais com eles, mas dia desses chego lá.

Como se não me bastasse a Zel-original , ou a Naomi (posso chamar de dindinha?;o), minhas tímidas futucações pela net andam rendendo um caldo. Já há algum tempo eu tietava descaradamente a 700 Km, por conta desse jeitão bem-humorado de escrever (leia-se escrever BEM) que eu gosto tanto e sei tão pouco. Daí é pra 'pior', né?

Esta semana fui parar, movida a baba, na seção de correspondência da Spam Zine, o que me valeu três aquisições muito legais para a lista de amigos loucos (falo mais dela qualquer dia desses)... a Renata, o Ian e o Inagaki. Falar o quê deles? Falar nada, ouvir, ou melhor, ler, que não tem muitas formas mais lícitas e louváveis de se aproveitar dos outros. Posso? ;o)



sexta-feira, março 02, 2001

Era preciso tocar o fogo...
Fogo medo e não dor. Calor muito obstáculo, movimento. Fogo parede imóvel tremeluzente. Era mais. Fogo de um mais sobre o outro. Cíclico infinito, eu em círculos.
Alma era no meio do fogo. Consumia e voltava e falava um fluido de luzes.
- Por que te assustas? Toma. É teu. – Não havia o que tomar, e era muito mais um se deixar tomar. Luz calor e medo, medo do não-fogo em volta.
O não-fogo era sempre grande, fundo, forte como um fim. Sobre fogo, sobre Alma. Urdido de nãos amontoados e escuros, ignorante de luzes muitas. Mas havia um senão oculto, ignorado de muito mas não de tudo, que Alma olhava com olhos de um saber velho e sereno daquelas enormidades. Ergui olhos tristes de ver que o fogo grande não tocava o não-fogo, ainda escuro, porém quente. Temi.
O não-fogo era sempre novo, espesso, certo como um não. Sobre vida, sobre tudo. Sabido de fins imaginados, temidos, absorvente de sonhos velhos. Mas havia um porquê discreto, dissimulado à vista mas não ao toque, que Alma tocava com dedos de um querer grande e seguro daquelas fragilidades. Abri braços lentos de achar que o fogo grande não minava o não-fogo, ainda inteiro, porém frouxo. Cessei.
Havia o de fora, frio e certo. Não-fogo todo e inteiro, e escuro e inerte. E era tudo. Sabido de ver mais do que conceber, que alma levava onde fosse em jatos. Sabido de olho e toque, os nãos eram ali, fogo dentro. Vez por outra era luz fugaz, de pouco estar fora, mas era, e forte, bela independente de raiz funda, e tão longe que abria cores quentes em todo o escuro, alvas muitas rápidas repetidas por sóis quase pequenos, não fossem as bases largas invisíveis. Vez por outra, e muito, e quase sempre, eram nãos, e escuro e espera.
- Abre os olhos, dá-te a ti, toca e olha. – Alma dizia o sempre, o nosso, que não haveria de ser mergulho louco, que louco já era o fogo, o vôo. Seria sim toque tato, descoberta. Toque olhado e sabido, e marcado em luzes nas mãos e nos olhos. Haveria de ser o não-se-temer em Alma, e em fogo.
E era fogo dentro a ser tocado, e era medo, e Alma nele. Alma tão nele que não se lhe via o fim. Tudo quente imóvel fogo-Alma vibrando descompassado. Bruto de intensidades fluidas etéreas, sem som, silêncio absoluto absurdo de trovão recente. Calor nos olhos, luz muita, medo sumindo. Tateei com os olhos, círculos em volta. Cíclico infinito, eu em círculos. Fogo nutrido de si mesmo e de Alma, crescendo nova nutrida do fogo, e sempre, cíclico infinito atemporal. Meu de se tocar.
Estendi-me e avancei. Não era preciso o toque. Ele era o próprio fogo.
Fora ainda e sempre escuro e espera.



segunda-feira, fevereiro 26, 2001

Não, de novo!
Mais uma vez, não!

Ahh... ta bom, eu explico. Zel sou eu, sim (Sorry, Zel, a – clique aqui pra ver -Original. O plágio foi inocente! ;o) Mas é tb o personagem principal de (adivinhem!) ‘CHAT ROOM – O Livro’. Ela se chama Zélia e eu não. De resto somos parecidas em quase tudo.

Zel personagem é ainda mais mulezinha do que Zel autora. Mulezinha não é o mesmo que mulherzinha, não confundam. Mulezinha é um conceito que eu finjo ter criado (claro que sempre existiu, sem o nome), e que digo ser um conceito netsociopsicológico. O pior é que há papocabeceantes que me pedem seriamente para discorrer acerca de netsociopsicologia. Minha imaginação precisava ser mais fértil e mais rápida!...rs

Mulezinha é aquilo que aprendemos a ser desde meninas. Uma mulher chamada Colette Dowling, se não me engano, chamou parte desse sentimento de 'Complexo de Cinderela'. Tudo bem, o meu é de Rapunzel, mas é similar. A mulezinha é frágil, insegura, susceptível a críticas, intimamente solitária, sonhadora, crédula por opção, romântica, doce... vou fazer uma pausa para q você possa limpar a calda que escorre no seu monitor...

Mas a mulezinha é extremamente arraigada e viçosa. Quase impossível matá-la dentro da sua hospedeira. Venho tentando fazê-lo há tempos, mas ela ressuscita periodicamente.

Esclarecidas as dúvidas do dia, segue o trecho:

“Havia uma fila enorme no caixa. Filas me irritavam terrivelmente, mas eu já havia decretado que, levasse o tempo que levasse, eu não sairia dali. Atrás de mim duas senhoras, aparentemente desconhecidas entre si, conversavam sem se darem conta (embora eu arriscasse um olhar de vez em quando) que eu as ouvia sem querer, mas atentamente.

- Ah, mas que falta de respeito uma fila desse tamanho! – Era uma mulher pequena, idosa, mas não o suficiente para a fila especial, ou talvez fosse daquelas que rejeitam essas filas por não se ‘sentirem’ idosas. Vestindo uma roupa simples e elegante, cabelos bem penteados, maquiagem leve, bijuterias. Fiquei imaginando por que uma senhora daquela idade se prepararia tanto para ir ao supermercado.
- Eles pensam que não temos mais o que fazer, imagine! – A outra era mais alta e magra, e mais jovem também. Mas parecia bem à vontade naquela conversa, na vagarosidade da fila, ao contrário do que dizia.
- Antigamente não havia toda essa modernidade, esse monte de computadores, e a gente não precisava passar por isso... – e pôs-se a dissertar sobre as vantagens de se viver no passado, enquanto a outra concordava. Eu ria daquilo por dentro, e de como somos gratuitamente resistentes ao novo.

Passei os momentos restantes conferindo os conceitos anti-modernidade daquela senhora, e os meus próprios, que caminhavam no sentido oposto sem colidirem exatamente. Eu sentia uma espécie de indulgência íntima, como uma sensação de admiração silenciosa e cúmplice diante do novo, do moderno, da tecnologia, e por que não, do virtual. Imaginei o tempo não gasto em bibliotecas e filas de banco, ou mesmo no trânsito, graças à Internet. Imaginei as pessoas fazendo amigos nas filas de supermercado, praças, bares e salas de chat. Lembrei de Ângelo e de suas idiossincrasias, marcas registradas daquela personalidade forte e única, mas que não encontravam eco na minha alma de pressas e urgências e palavras, que preferia o presente que o passado.
Ainda tive tempo de sorrir mais uma vez ao sair do supermercado, olhar para trás e ver aquela senhora pequena, quase doce, pagar suas compras com um cartão magnético de débito. Santa modernidade!
Cheguei em casa esbaforida – eu nunca conseguia andar devagar, nem mesmo quando carregava peso – e subi com um ar de quem acha água no deserto. Definitivamente eu gostava de estar em casa.
Enquanto tentava enfiar a chave no buraco da fechadura, utilizando técnicas recém-inventadas de equilibrismo com as sacolas, esbarrei o pé em um objeto rígido no chão. Estranhei aquilo, larguei tudo no chão e fui ver o que era. Não acreditei.
“Não pode ser normal uma coisa dessas”, falei sozinha, rindo, enquanto umas crianças que passavam no corredor cochichavam e olhavam.
Era um aquário do tamanho de uma bola de basquete, com pedrinhas, plantas e dois peixinhos. Um azul cintilante e um dourado com uma cauda enorme, como um véu. Colado com fita adesiva pelo lado de fora estava um bilhetinho escrito a mão:

"Zélia de carne e osso e alma,
Cuide bem de Slapi e Ima. Eles me disseram com os olhos que gostariam de fazer companhia REAL pra você. Mas acho mesmo é que querem que você lhes faça companhia (não conte isso a eles).
Ah, e esqueça as palavras, elas não são importantes, ok?
Abraços
César.”




o0o


sexta-feira, fevereiro 16, 2001

Não sei se é assim com todos os que amam as palavras, com todos que escrevem como quem come chocolate (Conheci outro dia uma moça que não gosta de chocolate. Tem cabimento?). Mas eu gosto muito de ouvir a opinião das pessoas a respeito do que escrevo. É claro que me derreto totalmente quando recebo elogios, e é claro também que os amigos acabam formulando mais elogios do que críticas. Mas gosto das críticas também.

Por conta disso - e, obviamente, do irresistível impulso exibicionista que toda forma de arte confere aos que a abraçam - publico trechos de meus escritos em todo e qualquer veículo que se me apresente. Assim, há alguns dias tive um trecho de meu escrito mais acalentado (Ihhh, lá vem a Zel de novo com 'CHAT ROOM - O Livro'!!!) veiculado em uma publicação virtual, que circula entre um grupo de amigos. Fiquei feliz e surpresa (mais feliz do que surpresa, felizmente) com os comentários que me foram feitos.

'CHAT ROOM' é uma narrativa feita na primeira pessoa. E a narradora, como vivo recontando, chama-se Zel. Mas apesar disso não é uma história real. Mas ainda assim, fico feliz quando alguém, depois de conhecer um trecho dele, vem fazer perguntas sobre os personagens ou a estória como se fossem reais. É como se eu tivesse conseguido o efeito que eu pretendia.

Algumas vezes fui consolada por problemas enfrentados pela Zel-personagem, recebi conselhos, ouvi críticas a este ou aquele personagem. E fico pensando em como tenho sorte por poder receber tanta atenção de gente tão especial (claro q só tenho amigos muitíssimo especiais, né?) sobre uma obra que ainda nem foi publicada. Este é um dos maiores presentes que esse mundinho virtual já me deu.

Conversava com um amigo (um destes muitíssimo especiais) a respeito do 'tempero' que se pode usar, perceber, acrescentar, saborear num texto, e fiquei pensando sobre o assunto. Escrevo com tamanho prazer que cada palavra, cada expressão que uso, é como aquele toque de sabor que é segredo irrevelável de qualquer boa cozinheira (perdoem-me os gourmets, sou caipira, viu?). Só que quem escreve é alma escancarada, não tem segredos que fiquem guardados muito tempo. No máximo se revelam cifrados, ininteligíveis, mas estão ali, no texto, sempre.

Lembrando da moça temperando a comida em "Como água para chocolate"...aiai...

Segredos e chocolates à parte, sigo aqui, escrevendo compulsivamente e alugando amigos desavergonhadamente para que me leiam e me ensinem a escrever para ser lida. Por isso é que logo abaixo destas palavrinhas, aparece o meu e-mail. Quer palpitar? ;o)

quinta-feira, fevereiro 15, 2001


----- Original Message -----
From: Lilian Wing
To: HAL
Sent: Thursday, February 15, 2001 10:20 AM
Subject: Cara-de-pau


Bom dia, moço dos olhos de vidro e das belas palavras...
Valho-me, tão egoisticamente quanto me é permitido neste mundo de muitas palavras e poucos olhos, do impulso irresistível de escrever-te uma carta, para também abastecer meu banco de idéias e mimar um pouquinho meus amigos-leitores-fiéis-visitantes.
Isto quer dizer que esta carta seguirá ao mesmo tempo para a tua caixa postal e para o blog. ;o)

O tempo urge, ruge, clama e escasseia nos momentos mais inesperados. Tenho vivido dias de tempo escasso, mas tenho também palavras que rugem, e a elas me rendo agora, humildemente.
Veja só que irônico:
Estive lendo e-zines esta manhã. Na verdade, estive lendo dois números de cada um dos e-zines que assino, já que se acumulam invictos em minha caixa postal há duas semanas. Acho que o tempo deveria ser menos democrático. Nada de direitos iguais. Deveriam ter mais tempo as pessoas que mais precisam de tempo. Mas aí precisaríamos de ainda mais, né? Bem, isso não vem ao caso. O fato é que eu lia os textos, alguns deliciosos, e os invejava com aquela inveja boa, meio babante, do Karate Kid pelo senhor Miyagi (é assim que se escreve?). 'Um dia eu aprendo', dizia a mim mesma.

O bom humor é algo misterioso para mim. É 'sentível' (pq será q essa palavra simpática não existe?) mas não 'escrevível'. Descrever é fácil, mas pôr sorrisos no texto, daqueles autênticos, gostosos, é tarefa das mais complicadas. Será que os sorrisos são voláteis? Será que têm asas? Fico intrigada ao perceber que eles pousam e permanecem no rosto, mas não no texto...
Daí li, ou melhor, reli sua carta logo em seguida, e pensei: "Puxa, que lindos sorrisos!". Já me preparava para assumir bravamente a minha inveja quando você, assim, despudoradamente, me declara a sua. Que deslealdade, hmm? Enfim: Há textos e textos, autores e autores. E saber-se admirado por alguém que se admira é presente dos mais bem-vindos, né?

"That's why, darling, it's incredible
that someone so unforgetable
Says that I am unforgetable too"
(pausa para um longo suspiro...aiai...)

Voltando à vaca fria - e tentando imaginar que proveito haverá em se voltar a uma vaca, ainda mais no caso de ela estar fria - estou feliz e sorridente e saltitante por um monte de razões. Escrever é a principal. A Elis disse que não via graça em outras coisas como via graça em cantar. Eu era criança e a frase me acertou a alma como um tijolo, deixando marcas. Mas eu não sabia ainda se um dia haveria algo que me movesse tanto. Escrever me move assim. E saber que há quem goste de me ler é sem comentários!

*pensando agora se não é muita cara-de-pau publicar esta carta*

Pois bem, moço, creio que é isso. Ao menos é também isso. Bem-vindo ao coração de Zel, e obrigada de novo por vê-lo com tão bons e vítreos olhos! ;o)

Beijos e sorrisos
Lilian

quarta-feira, fevereiro 07, 2001

A única coisa que me faz falta nos livros de papel, em comparação com a tela do computador, é o tal do ‘localizar’. É que eu tenho um defeitozinho de fábrica que por vezes me atormenta: a incapacidade aparvalhada de decorar o que quer que seja. Sou excessivamente infiel às palavras que leio. Elas me invadem, arrebatam, sacodem, aquietam, excitam, deprimem, machucam, acariciam, e nesse afã vão tomando a forma de meus próprios vazios, aqueles que preencheram. Deixam de ser o que são para serem o que eu sou sob seu efeito. Daí, decorar (ê, coração indolente!) é impossível, posso no máximo digerir.

Ah, como é patético ficar fuçando todas aquelas páginas à procura do que tenho certeza que está ali, e que me entrou como faca na alma, queimando, e ali ficou, mas é preciso o literal para mostrar aos outros o que foi dito exatamente. Daí o trecho que procuro, e que já mora em mim, mas não do jeito que eu preciso – ou melhor, que eu acho que os outros precisam - , ri debochado a cada vez que passa sob os meus olhos e eu não o vejo. Posso ouvir sua risadinha de escárnio, e morro de raiva porque sei que a vitória dele é quase certa: Eu vou acabar desistindo. Esses são dos poucos momentos em que lamento esse meu jeito corrosivo de apreender as palavras.

Acaba de acontecer algo assim. Quem ri de mim agora é a Clarice Lispector (ou será a G.H.?). Resolvi reler seus últimos capítulos, como que resgatando algo que ficou ali, nas páginas, sem que eu tivesse permitido que entrasse em mim. Resgatei, felizmente. Vi muito do que não havia visto antes, e me alegrei com o quanto a minha abertura ao texto era maior dessa vez. E entre o muito que foi dito, havia algo sobre a sensibilidade, e a indiferença.

E não houve forma de me fazer encontrar o trecho onde ela mostrava em suas reflexões a indiferença como algo a ser atingido, o prescindir das coisas e sensações como uma forma mais apurada de ser. De certa forma muito primitiva, muito enfumaçada, eu entendia, e apesar de desistir de saber exatamente que palavras estavam lá, sei que estavam lá. Então passei a refletir sobre a indiferença, às avessas.

A indiferença me aborda como algo incômodo e desconhecido. Não vivi a indiferença, em mim. Penso que não sou indiferente a absolutamente nada. As coisas, as pessoas, os fatos, as idéias, os sonhos, tudo me atinge e sensibiliza de forma quase violenta. Penso em uma forma mais apurada de ser, e quase lamento o fato de que quanto mais se me apura a existência, na minha maneira de ver, mais intenso é tudo.

Conversava ontem, não comigo mesma – pensando bem, acho que também comigo mesma – mas com um amigo muito querido e muito paciente, pelo icq:
- E o que vc sabe sobre vc???
- Sei que sonho em excesso... E que meus sonhos saltam dentro de mim qdo não os deixo falar... E que não posso deixá-los falar, então saltam, e me machucam... E que qdo dói, fico como morta, e encho de indiferença as pessoas q se aproximam...


Lembrando do que eu mesma disse, rio da idéia de que até a minha indiferença se alimenta da sensibilidade. O que não importa é fruto do que importa muito. Resta-me então um conformar reverente, ante os meus limites, que penso às vezes existirem para que eu mesma não exista mais do que minha trôpega Alma fraquinha - ainda que tão anelante sabe-se lá por que multidão de coisas,ou pelo todo desconhecido de si mesma - possa suportar.