sexta-feira, setembro 21, 2001

Quando eu era criança, e quando eu era adulta, e quando eu não sabia se era uma coisa ou outra, ou a mistura dos dois, eu ficava imaginando se seria possível atravessar o espelho, e viver a vida invertida que havia lá dentro. Depois eu entendi que os espelhos não podem ser atravessados por quem se faz enxergar neles. Depois eu descobri que podem.
Dentro do espelho é tudo sem sentido. Sentido é só fora dele, embora dentro sinta-se tudo. Só que não se sabe. Saber é secundário. O sentido. Os sentidos têm focos invertidos, e o mais visto é o que não se viu. O mais ouvido é o silêncio. O mais degustado não tem gosto. O maior cheiro é só uma lembrança. Dentro do espelho é impossível compreender, por isso é tudo tão claro e límpido.
Voa-se, lá dentro. Fácil, fácil. E longe, que é logo ali. Mergulha-se fundo atrás de tesouros que não há, e se os encontra. Brilham. Mas não se traz o tesouro, que é só lá que ele vale. Há liberdade dentro do espelho, e a prisão é fora. Ninguém vai ao espelho se não inteiro. Finge-se. No espelho se é uno. E muitos, mas completo. Ambíguo, inversamente paradoxal.
Pode-se cobrir o espelho, e ele ainda é. Pode-se - não se deve - quebrá-lo, e ele ainda é, múltiplo. Pode-se ignorá-lo, mas nunca esquecê-lo.
Espelho não tem vontade. Tem só verdade.

sexta-feira, agosto 31, 2001

Talvez, talvez

Talvez venda e não cortina

Talvez tênue luz de lua,

Ora nova, ora cheia

Talvez prosa, talvez verso

Talvez tempo, talvez sorte

Talvez sol...

Talvez som. talvez silêncio...

de certa só a incerteza.

quinta-feira, agosto 30, 2001

Que coisa terrível, e deliciosa, essa de pensar sobre o amor..
Lembrando da paixão (tesão) da língua. É intenso, tá vendo? O humano é intenso, ávido, sôfrego. Os sentimentos humanos, então... é claro que não é o ideal. Ideais são as borboletinhas amarelas que esvoaçam sobre o mato aqui no meu quintal. Levíssimas, inexigentes, suaves, quase sonhos. Mas pousam quando não vemos, e morrem, também.
Ser leve então, eu penso e sinto, é escolha. É exercício e esforço de deixar o outro voar quando o queremos nosso (e é nosso também o vôo, muitas vezes, que lindo). Porque queremos ser barco errante - e como erramos! - e queremos o outro, confortavelmente, porto. Sim, porque o pouso inevitável da borboletinha amarela é sobre. E há que existir um 'sobre o quê'. Mas há que se ser leve por amor, também, que conhecemos os males do se deixar pesar em amores sobre alguém. Então é, repito, exercício e esforço. Mas vale a pena.
Quando um texto me move muito, é quase físico um sentimento assim: as palavras dançando em mim como peixes na água. Totalmente minhas, mas ainda assim difíceis de capturar. É como se eu tivesse - e tenho - muito mais a dizer do que digo, não por vontade. É uma angústia que vai do doce ao ácido corrosivo. Hoje é doce.
É assim diverso o sabor da tal angústia, penso, porque é diversa a solidão também, e ela é meio que reguladora das emoções todas. Então o que é compartilhado é sempre doce, até a dor ou a dúvida. O sentimento/idéia/pensamento compartilhado brilha, e seduz, e ainda que angústia é mais e mais desejado...
Parecem irmãs a solidão e a liberdade. Gêmeas, talvez. Talvez uma só. E não se deseja a solidão. Na verdade o próprio desejar a liberdade tem suas nuances de escravidão, se olharmos direitinho.
Ah, o que dizer do amor que ainda não tenha sido dito? Esse que é leve e livre e lindo, mas tão pouco consistente quanto a água que se beba para matar a fome, ou sobre a qual se tente caminhar. Esse que é refúgio, abrigo, mas envolvendo agrilhoa, alimentando sufoca. Assistia dia desses um vídeo sobre o nascimento dos animais, e era tão estranho o modo como a maioria deles não se desfaz em amores pela cria, a não ser talvez através daqueles cuidados indispensáveis à sua sobrevivência no começo da vida. Depois, é adeus, você pode sem mim.
Nem sei se digo o que acho, ou se acho. Mas disse o que veio à mente, deve ser o que sinto. E, creia, eu sinto muito melhor do que sei.

quinta-feira, agosto 23, 2001

O conto se chamava ‘Perdoando Deus’. O problema da Clarice Lispector é que as letras dela batem na gente e tiram lá de dentro outras letras, que começam a pular em desordem barulhenta, e quando se percebe já não se está mais lendo, mas escrevendo com os olhos. Era só o que eu precisava. Escrever com os olhos. Não que seja ruim escrever com as mãos, mas neste caso – e tanto o tenho feito, prazer abafado feito sexo com camisinha – não se voa, e é voar que me interessa, sempre.
Então as letras me faziam escrever com os olhos, e fiquei feliz porque nestes escreveres é que tenho certeza de poder achar as palavras que ando procurando, ávida. Dependendo de para quem ou sobre quem se escreve há muitas, muitas palavras que não servem. Muito secas, frias ou quentes demais, preguiçosas ou excessivamente ágeis. Andam caprichosas as palavras, onde irão parar? Eu procurava palavras fortes e doces, que portassem mesmo não ditas um certo ar tarado-elegante que forjado – e eu nem sabia que sabia forjar – me prendesse na pele aquele olhar que eu já sabia atento. Minha pele palavra. Mas quais?
Estariam certamente nalgum escrever com os olhos. Ah, sim, o conto era ‘Perdoando Deus’, e nesse livro eu vinha marcando as páginas com uma etiqueta, que eu colava na página seguinte à que eu lia. Dessa vez, terminado o conto anterior, eu a colara sem querer sobre ‘Deus’, no título que eu já sabia qual era. Mesmo assim cedi ao ritual de ler o título, levantando cuidadosamente a etiqueta e lendo ‘Deus’. Tratei de devolve-la ao lugar, e agora era só ‘Perdoando’, e eu também gostava. Prossegui. Mas aí já não lia.
Quando as palavras – certas palavras – chegavam , acordavam as palavras de dentro, que iam umas acordando as outras num efeito dominó ensurdecedor, e nada saía ou entrava, palavras congestionadas e eu ali, só sendo feliz. Tratei de fechar o livro, mesmo temendo pelo tudo que se abria em mim, mas eu sabia que era tarde e inevitável. Elas estavam aqui, serenas e cúmplices. Soberbas, autoritárias, insuportáveis.
Cheguei a sentir o sabor das palavras novas. Vi suas formas e cores diáfanas esvoaçantes. Quase pude toca-lo. Fugia. Dançava, forte, doce. Tentei detê-lo ainda. Sorria. Soube mais do que já sabia, que o olhar atento o é, sempre. Mesmo sobre palavras não ditas.

quinta-feira, agosto 16, 2001

Encontro - II
... Foi o que aconteceu. Emergi das minhas divagações e do ofuscamento gostoso daquele sol laranja e do milhão de estrelinhas da água bem a tempo de ver que aquela silhueta azul-acinzentada que se movia resolutamente na minha direção, embora ainda examinasse todas as mesas ocupadas à minha procura, era ele.
Nem foi difícil reconhecer o sorriso fácil, quase juvenil, no rosto maduro. Apesar de nunca o ter visto nem por foto, não foi difícil. Nossos sorrisos foram como abraços, e começamos – ou retomamos – uma conversa longa, a mesma de sempre, e sempre nova, dessas raras e vivas que jogam fora o tempo e trazem à tona a nós mesmos, tanto que chega a assustar. Mas já éramos versados nelas, assustávamos bem pouquinho, ao menos eu imaginava.
Tínhamos hábitos estranhos, ambos. Perguntas, respostas, até discussões pouco usuais. Por isso não estranhei quando ele quis saber exatamente qual dos carros estacionados ali em frente ao bar era o meu. Conversa fluida, interminável, e, descartado o tempo, era noite. Tão estrelada quanto havia estado o mar no pôr do sol. Meu gentil acompanhante pediu a conta, e me conduziu em direção à avenida, de modo que parecia que íamos em direção a um passeio à beira-mar, mas que terminou bem em frente ao meu carro estacionado. Ele bem conhecia o meu hábito infantil de dizer ‘fica!’, insistente, não importava o motivo da partida. Antes que eu pudesse dize-lo, então, me disparou um beijo na testa, entrou no táxi que eu nem havia visto parado ali no sinal e desapareceu. Sem que eu me desse conta, havia ficado em minha mão um envelope, e dentro dele, previamente escrita à mão, com caligrafia primorosa, a crônica de um encontro ao pôr do sol, exatamente como havia acabado de acontecer.

quarta-feira, agosto 15, 2001

Encontro - I
Olhei de novo na direção do sol, que era também a da rua, e da praia. Olhos muito apertados, eu divertidamente fingia me incomodar com o ofuscamento provocado pelos raios que invadiam os meus olhos, o bar e todo aquele fim de tarde quase mágico. Lá longe, no mar em frente, brincavam na água um milhão de reflexozinhos saltitantes como estrelas, espécie de presente de despedida daquele sol que daqui a pouco iria dormir.
Lembrei sem querer das aulas de ciências, aquilo de o sol não ir dormir, porque ele é uma estrela, e a Terra é quem gira, e a rotação e a translação, e que estrelas são gigantes incandescentes, e não reflexozinhos saltitantes. Professoras de ciências têm um quê de sádicas, como aqueles cirurgiões que manipulam bisturis sem pena sobre a carne das pessoas. Uma vez eu havia saído tristíssima da aula, ainda no primário, quando Dona Nancy contou à turma que o coração não continha sentimento algum, e a gente amava, tinha medo, ficava triste ou feliz era com o cérebro. Imaginei que horrível seria desenhar cérebros atravessados por flechas, em vez de corações, e escrever neles o meu nome ao lado do daquele menino lindo com quem eu tinha certeza que ia casar um dia. Odiei Dona Nancy e as aulas de ciências por duas longas semanas.
Havíamos optado, ainda por telefone, por uma mesa na calçada. Por isso não importava que o sol invadisse o bar, já que eu o esperava do lado de fora. Esperava o moço, que o sol eu não precisava esperar, havia estado sempre ali. O moço também, pensando bem... e eu pensava. As pessoas passam por este mundo em busca de afinidades, e quando as encontram é que se dão conta de que elas sempre estiveram ali. Certamente passam por nós, ou muito próximo de nós, pessoas com quem temos afinidades grandes que jamais serão descobertas. É terrível, mas o bom que é quando as descobrimos compensa boa parte da frustração.
O moço não estava atrasado, não. Jamais se atrasava, pelo que eu podia supor. Metódico, organizado, gentilíssimo, socialmente correto, como eu costumava dizer, debochadamente carinhosa. Carinhosamente debochados, éramos assim. E eu havia chegado minutos mais cedo justamente porque sabia que ele não se atrasaria, e queria a cena assim. Eu ali, bem acomodada, e ele chegando, procurando...
(continua)

quinta-feira, agosto 09, 2001

Parecia água. Filtrava os raios de sol do mesmo jeito, aquele jeito maroto que a água tem de fazer as coisas parecerem maiores do que são. Ou de fazer com que pareçam estar onde não estão. No vidro fechado parecia água porque a tampa impedia que se lhe escapassem os vapores, o cheiro forte de formol que por associação era capaz de denunciar a morte antiga que ali dentro estava guardada. O feto jazia imóvel ali há pelo menos dez, doze anos, e muitas vezes despertara nos observadores mais imaginativos conjecturas sobre como seria ou onde estaria este menino – sim, era um menino – hoje, se tivesse permanecido dentro da mãe, e nascido, e crescido...
Mas não havia sido assim. E ali estava ele, objeto de observação cuidadosa de professores e de alunos adolescentes do segundo grau. Aliás, parecia até contraditório, levando-se em conta a maioria, relacionar a observação cuidadosa aos adolescentes. Mas era assim, especialmente agora.
Não devia ter mais do que quinze anos a moça, ali acocorada atrás da mesa do professor, onde ficavam as prateleiras baixas com os vidros de formol. Entre as duas mãos o vidro com o menino, quase colado ao rosto, e o olhava, absorta. Cena nem tão incomum se o olhasse, como quase todos que o faziam, com curiosidade. Mas era olhar de derrota. Parecia que ela conversava com o menino, que o olhar a havia transportado para dentro do vidro e ela ali nadasse com ele, dolorida. Não percebia os colegas, não ouviu o sinal indicando o início de uma nova aula, não viu a chegada da professora nem a perplexidade dela, menos por presenciar aquela cena do que por compreende-la. Plenamente.
Segundos infinitos se passaram entre a entrada da professora e a volta da aluna ao seu lugar. Enquanto aguardava que a moça lhe permitisse o acesso à sua própria cadeira, a professora teve a lamentável sorte – há sortes lamentáveis, como aquelas que nos fazem saber o que preferíamos ignorar – de ler claramente a história que, já escrita, se mostrava no olhar da moça. Não tocou na aluna, não disse nada, e inexplicavelmente nenhuma outra pessoa naquela sala o fez, ao menos que tivessem percebido. Passado o tempo necessário para que se concluísse em ambas o que precisava ser concluído, a moça voltou para a professora uns olhos enormes, imensuráveis, brilhantes, profundos como abismos. Conversaram longamente, trocaram confidências, choraram juntas, tornaram-se cúmplices, tudo isso em não mais do que três segundos. Coisa de mulher, diriam os que o pudessem perceber, que há palavra que só elas têm, lembrança, história que só elas vivem, dor que só elas sentem.
E não há homem ou mulher capaz de saber se assim é justo. Nem há tempo. Bom dia , turma! Hora de começar a aula...


terça-feira, agosto 07, 2001

Nova - III
“Ah, pessoas! Gente terráquea que se entende e se basta! Gritem por mim, que nada sei, nada entendo! Digam que a chuva é chuva e nada além disso! Gente que anda e fala e vai ao cinema e não escreve no shopping, grite por mim, por piedade! Digam que é só isso, e me aquieto. Digam que ser é essa coisa de metabolizar e respirar e comer e excretar e morrer, e eu acredito e me acalmo. Mas digam! Olhem!!!”
Há de passar despercebida, junto com todos os seus gritos surdos. Há de gritar violentamente pelos olhos, em desespero. Despejar-se-á em jorros sobre o pequeno caderno novo, os dedos doendo, um choro dentro tão intenso que a Alma canse e engasgue. Porque sabe, e não sabe dizer. E teme não dizer, jamais. “A vida é tanto e tão fundo que acho injusto que eu saiba disso, pequena assim.”.
Então acalmará. Um pouco, ao menos, e finalmente. Há de desejar deitar e dormir, mas não fica bem. Chorar alto, para fora, mas não fica bem. Abraçar um desconhecido, será permitido? Certamente não... Uma senhora desconhecida, talvez, sozinha na mesa em frente. Esperando tranqüila. Abraça-la? Não fica bem. Saberá uma serenidade nova, nem triste, nem alegre. Um sossego. Um medo de interromper o jorro de palavras e perde-las de novo. Há de ser novo, tudo, agora. Poderá ir, voltar ao cinema, tomar um café. Terá o seu algo novo, de novo, e ninguém saberá. Mesmo que lhes conte.


quinta-feira, agosto 02, 2001

Nova - II
Será então uma figura atípica fazendo anotações frenéticas em pleno shopping, em plena multidão, em plena tarde de pipoca e cinema. Será alienígena no mundo de fora, cidadã de dentro, de verdades tantas que será impossível crer em qualquer coisa.
Impossível crer em qualquer coisa.
Em verdades tantas que será impossível crer em qualquer coisa, restará enlouquecer. E terá sido antes, bem antes de conhecer o mundo, a loucura. Por isso é que não há de entender o tempo, os medos humanos, as mortes, sorrisos, lágrimas humanas. Os saberes sem se saber. Os mostrares sem se mostrar. O tempo. As crianças que crescem e aprendem a sofrer. As que sofrem mesmo sem aprender. As coisas que desaprendemos a rejeitar. As lágrimas, os escuros, o negar sonhos. Então já se estarão acalmando devagar as batidas do coração, ainda loucas. A turgidez de idéias amansando. Há de arrefecer então em sua vontade de gritar, porque estará aos gritos. Em silêncio.
Uma criança se aproximará, fará uma pergunta. Duas. Responderá automaticamente, desejará ser invisível. ‘Por favor não fujam’, gritará para dentro. ‘Não me abandonem outra vez, não se escondam’. Silêncio e turbulência, estarão lá ainda. Há de olhar o próprio deserto, ainda mais vasto do que pensava, e saberá ser do deserto o choro, os gritos nas noites, nos livros lidos. Um choro que roga ‘Gritem por mim!’.
(continua)

quarta-feira, agosto 01, 2001

Nova - I
De repente há de ficar tudo claro. Claríssimo. Um ofuscamento de porquês descobertos e motivos coloridos, confusos, belíssimos e assustadores. Talvez num domingo. Sim, um domingo mágico de banalidades, uma tarde no shopping e um tumulto de idéias mudas e revoltas mal escondidas debaixo da cara de ‘boa tarde’. Ela se lembrará do caderno vermelho e de ele ter sido tão caro, tão caro. Não saberá, é claro, quando o terá adquirido, nem por que, nem se por querer, mas saberá claro que o há de pagar toda a vida. Um nó na garganta, breve virão as lágrimas. Há de precisar verte-las em letras, há de escrever. Mas onde?
Haverá... uma loja. Sim, entrará nela e olhará os cadernos coloridos enfileirados, e parecerão todos o mesmo. Há de escolher o menor de todos, o insignificante, de desenhinhos coloridos na capa que jamais se lembrará quais são, e de igual forma temerá não lembrar o que dizer se demorar mais um minuto. Coração saltando, terão voltado as palavras. De assalto, de tocaia, desleais, inescrupulosas. Soberanas. Belas, lindas, tão amadas. Suas, saberá, desde sempre. Ela duvida, às vezes, duvida com a mente. Mas Alma não conhece dúvida. Conhece sins e nãos. Alma esse amontoado de si mesma que carrega dentro e que nem sempre vê. É, às vezes é tão dentro e tão forte que não pode ser vista. Às vezes é sabido o quanto é Alma de doer e fazer doer, e fica escondida.
Há de procurar ávida o melhor lugar. Verá uma mesinha do shopping, e agora, sobre ela, o caderno novo de capa desconhecida. E é assim que se saberá, também. De capa desconhecida, o não sabido por fora e o mundo na garganta, apertando. Ah, como serão lindas e enormes as suas dores. Como serão visíveis. O de dentro de doer e fazer doer, há de saber, não fugir, não se trancar agora.
(continua)


domingo, julho 29, 2001

Está bem, eu fico só. Escuro e silêncio, está bem. Sem olhares que me não vejam, sem toque. Sem choque. Fico só, presa fácil do deus-monstro-solidão, tolo e voraz. Monstro grande de boca ávida de oferendas da Alma e da calma que perco e já quase não tenho. Está bem. Fico só em mim, só Alma, só mente. Somente peço, imploro e morro pelo dizer. Dizer de mim, de sonhos, e tantos, e tão grandes que não os posso ver inteiros. Então nego, mas vivem. Sonhos iguais, comuns, mas tão meus. Dizem que os sei contar, não sei se sei. Sei? Olha pra mim, assim em chamas. Olha isso de mim que assusta. Diz que posso, e vou. Fico só. Encolho e espero enquanto preciso e preciso que seja breve. Depois é depois.
Depois de tudo será a calma. Silêncio de céu limpo e escuro. Só no escuro ficam visíveis as verdades de dentro. Só-no-escuro-as-verdades-ficam-visíveis-de-dentro. Só no escuro há verdades visíveis, de dentro, fic... ah, contrastes! Contra-escuro de ser e ser. Um limpo novo e imóvel de tempestade que passou, e a calma.Só depois as certezas. De mistérios, de não saberes. Serena ignorância, humanidade. Vencer o humano é vencer o querer.
Talvez se deva só o que não se quer. O de que fujo é então o que preciso? Está bem, eu fico. Está aqui. Está o que sempre esteve, e foi, e fui. Só.

segunda-feira, julho 09, 2001

- Mãe, você deixa eu sair com um garoto?

Havia chegado o dia. Como é implacável esse tal de tempo! Outro dia mesmo o que saía daquela boquinha era um berro muito vivo, sob os tapinhas do obstetra. Agora eram aquelas atrocidades!

- Cumequié?

- Sair com um garoto, mãe. Mas é sair só até a pracinha - o sorrisinho maroto denunciava que ela já sabia a resposta.

- Ô menina, você só tem oito anos! Que idade tem esse rapazinho? - aquilo parecia pra mim um filme que se poderia chamar "Histórias do Mundo Cão".

- Sete!

Sorri de alívio e de mim mesma. Fiquei pensando no muito de não-mundo-cão que há nas crianças, e dei uma olhadinha furtiva e envergonhada para a criança que eu tenho/sou por dentro. Essa que eu chamo de Alma, e que é também assim desmascarada, simplificante das complicações da vida, mesmo quando parece o contrário. Mas é criança de pouca rebeldia, felizmente para essa eu-de-fora, casca adulta e limitada. Limitante então, bisturi de cortar asas, se necessário.

- Pode não! - Simplifiquei despótica, suplicando intimamente que essa fosse a última palavra. Nem foi, mas a pouco acalorada discussão que se seguiu, dada a pouca importância do seu objeto, acabou bem.

- Tá legal, eu já tinha dito isso pra ele - declarou quase rindo e foi para o banho, sem perceber o meu suspiro.

Dia desses eu conversava com um queridíssimo amigo sobre "desligar o superego". Penso agora no susto que essa possibilidade me causa, e no trabalho que sempre teve o tal superego para manter sob controle essa criança-alma, tão dócil quanto voluntariosa, que odeia renunciar. O renunciar a coisas ou a pessoas é ardido e árduo, mas ironicamente o é tanto menos quanto mais vezes acontece.
Fiquei ouvindo a vozinha daquela mulher-miniatura que agora cantava um funk sob a água do chuveiro. Ela afinal me parecia mais madura do que esta mulher-miniatura aqui dentro, que esperneia e grita, eu-criança-alma, diante de cada renúncia dessas tantas vida afora. Mas também cresce esta, eu sei. Como é implacável esse tal de tempo!


quinta-feira, julho 05, 2001

O casulo permanecia lá, impassível, diante do meu olhar indiscreto e impotente. Parecia tudo, menos vida. Ávida de símbolos, esta humanidade. Metáforas que lhe traduzam o não saber de si mesma. Pois bem, o casulo era cinzento igual a uma tempestade, e um pouco disforme. Eu não gostava do que via, mas secretamente conversava com ele, e não percebia que era porque é muito mais fácil conversar com quem não responde. Eu lhe fazia perguntas cujas respostas vinham de mim, e ele não assentia, nem contestava. Permanecia casulo cinza, imovel, e eu permanecia eu. Tanto o meu crescer quanto o meu diminuir eram eu. Anjo e abutre, comodamente inconsciente tanto de grandezas como de hipocrisias. Sim, porque nada somos mais do que humanidade.
Nada somos e nada podemos mais do que o humano. E lutamos pelo mais-que-humano. Seja o casulo, seja a tempestade, seja vida ou morte, seja a saudade meio absurda de alguém que foi embora de verdade, mas de quem não se conhecia mais do que as palavras; seja a culpa pela saudade absurda e pelo falar dela, o sentir-se tão pequeno... é tudo humanidade, e queríamos mais. E lá estava o casulo-morte-tempestade só pra me lembrar dessa pequenez não mais que humana. Desejei que se abrisse bem ali, diante dos meus olhos, e voasse tudo o que não consigo. Desejei uma certeza mais-que-humana de que as pessoas quando deixam esta vida voam tudo o que a gente não consegue. Mas a única certeza que tive foi a de que se vive nas marcas que se deixa. E no que é mais eficaz esse humano pequeno que somos, do que no marcar o humano? Quem vai embora arde em quem fica por causa das marcas. Mesmo de longe, mesmo sem rosto. Esperei, esperei... talvez visse o casulo vazio, dias depois. Não procurei, porque não veria o vôo. Só as marcas dele, e marcas já tenho muitas.

quarta-feira, julho 04, 2001

Olhava manso e direto. Um sem-cortinas que já a tantos intimidara que nem era surpresa quando alguém lhe evitava o olhar. Castanhos os olhos, e em sua modéstia ou falsa modéstia dizia-os ‘cor de asa de barata’, rindo. Profundo e vivo em olhares e palavras. Muito mais de olhar do que de ser olhado, mais de ouvir do que falar. E um enfrentar a si mesmo constante e dolorido que por vezes o curvava quase imperceptivelmente, espasmos-verdades.
Falava bonito, mas um falar bonito que nada tinha a ver com o palavreado rebuscado que nem gostava. Falava um falar que de bonito tinha o vir de uma região de si mesmo que prescindia e desconhecia palavras. E prescindindo e desconhecendo, apesar disso, ou talvez por isso, adquiria o poder de faze-las vivas e novas. Falava baixo mas nem sempre lento. Calava muito, um calar aflito e aflitivo de vida intensa, ardente, que de tão ardente logo cedia.
Sorria muitas vezes, mas tão discreto que pouco se percebia. É que sorria mais com os olhos do que com a boca. Talvez por isso aquelas luzes, que pareciam escapar dos olhos mesmo quando tentava, sabe-se lá por quê, mostrar um escuro que nem parecia seu. E eram tantas as vezes, como se temesse pela sorte dos outros diante do que era e pouco conhecia. Ser menos forte pelo bem dos fracos. Certamente sob dor forte.
Tinha mãos longas, firmes. Ágeis e precisas, e estranhamente apropriadas tanto aos esforços, não poucos em vida assim atribulada, quanto às delicadezas, estas de desejo e escolha. Podia transformar pedras em flores, gabava-se fingindo mentir, sem nunca deixar claro a que exatamente se referia.
Inaudíveis os passos, sensível e suave o toque, quase cerimoniosos os movimentos todos. Movia-se calmo mesmo quando aflito. Só nos olhos-faísca se lhe podia ver a fúria de alma, e eram poucos os que a viam. E tão próprio em reações e pensamentos que talvez fosse indiferente a uma tempestade ou talvez absolutamente arrebatado por um raio de sol. E se pouco se dava a conhecer de nome ou imagem, as muitas luzes de dentro o tornavam tão familiar que era como se estivesse estado sempre ali. E como se agora, conhecidas as luzes, fosse necessário mantê-lo ali sempre. E pra sempre.

segunda-feira, junho 25, 2001

Olhou de novo para seus livros novos, brilhavam. Montes de vida que ninguém via. Ou via? Ouvia dizer do bom que era um livro e do conter palavras. Mas sabia que era mentira, porque o conter palavras era triste e morto. Contivera palavras muitas vezes, triste e morto, e doíam como espinhos. Tirar espinhos também doía, embora menos, mas não sabia então ali ficaram. Quentes rubros de dor aguda radiante. Silêncios túrgidos.
Era assim que os via, os livros virgens. Eram casas. Mas vivas, e isso de casas vivas é confuso e difícil como tudo o que é vivo. Viu-se casa viva e difícil. Livro virgem. Precisava que se lhes extraíssem as palavras para que se pudesse fazer habitar, mas eram espinhos queridos, e os abraçava. Verteu assim de repente um medo escuro e denso, e grande, de que também os livros virgens novos abraçassem as palavras como espinhos queridos, e não as libertassem, e não as entregassem e não fossem habitáveis, e então seria tão grande o desabrigo que nem o medo grande alcançava. Mas lá estavam, e os olhava.
Tocou-os de leve, cada um. Não eram seus porque não eram nada, assim fechados. Chorou sem lágrimas o não-saber de tantos, talvez todos, que solidão pequena não é solidão, daquela verdade mínima. O não-saber do nada que são as palavras contidas. Nos livros e nas almas. O nada que assola a Alma é só um monte de palavras-espinhos contidas, medo de ser. Invisíveis e inaudíveis medos de ser.
Era seu o trabalho agora. Eram seus todos os nadas ali em suas mãos, e deles precisava extrair abrigo e dor. E de si, quem o extrairia? Sim, que era em si o confuso difícil do que é vivo, e há que se embeber em coragem mão e olho para entrar nele. Coragem, onde mesmo? Talvez não em outro, talvez não em si. Descobriria um dia, decerto. Agora era descanso e espera sob o aberto dos livros novos, à sombra de suas palavras já vivas, porque já não tão contidas.

segunda-feira, junho 18, 2001

Peguei um vírus. :o(
E não foi um vírus de computador, não. Não teve McAfee, Norton, não teve site-em-inglês-onde-a-gente-só-entende-a-palavra-download que me valesse. Não teve verificação, varredura, lavadura ou enxaguadura que o detectasse na chegada, e chegou. Era vírus-vírus, mesmo, no sentido pré-histórico da palavra. Aquele que a gente entende com o corpo inteiro.
Veio e aboletou-se no recôndito enxovalhado da minha garganta, silencioso – o vírus. Aproveitou o escurinho e a maciez do meu epitélio cilíndrico ciliado e ali prosperou. Cresceu, multiplicou. As valentes cordas – pregas que não se assumem – vocais, mais usadas do que sapato de carteiro, mas sem direito de reposição, já haviam dado muitas vezes sinal de exaustão, mas jamais de desistência. Pois bem, fiquei muda.
Quando o sujeito fica mudo ele tem mais tempo pra pensar. Se for professor, ou algo assim verborrágico, tem ainda mais, porque fica sem serventia e vai pra casa. Perde-se um tempão falando, há caminhões de abobrinhas verdinhas e bem-nutridas jorrando em direção aos ouvidos avisados e desavisados. Há abobrinhas pensadas, também, mas essas não são tão nutridas, porque é o tráfego que as alimenta. Permaneci restrita a essas, então, ao menos até ouvir o “thrrrrrrrrrrrrrrrrrrróinhóinhóinh” do modem, e adentrar este mundo onde se pode conversar sem voz. Paliativo, que a gente gosta muito mais é de abobrinhar à moda antiga.
Meu hóspede parecia muito à vontade. Roubou a voz, devolveu metade dela, trouxe a tosse, prendeu o ar, usou o diafragma como cama elástica, a epiglote como cavalinho, os sinos da face como piscina... Aflição do corpo pra quem só andava acostumada às da Alma.
Resmunguei, reclamei. Intuí monstros debaixo da cama. Resgatei pesadelos da infância. Chorei, chorei. Magoei um amigo querido (toctoc... :oP). Errei na automedicação e melhorei. Corrigi o erro indo ao médico e piorei. Pedi à filha que fosse minha mãe. Usei a palavra ‘mãe’ 9584850595459 vezes em três páginas de texto. Fiquei dopada de remédio. Fiquei acordada de raiva. Fiquei pequena, pequena, quase microscópica. Aproveitei o tamanho pra ir bater um papo com o meu hóspede, mas ele não me recebeu. Resmunguei, reclamei.
Imaginei-me uma caixa de geladeira. Assim enorme, grandona, larga, imponente. Auto-suficiente. Com medo de ser derrubada por um golpe de ar. Uma caixa de geladeira duplex com o desenho bem grande de uma taça quebrada, sublinhada por letras grossas e pretas: CUIDADO,FRÁGIL.

quarta-feira, junho 13, 2001

Havia sido sempre o respirar palavras, e tinham cheiro, agora. Ar-palavra pesado e fértil. Pólen quase livre, leve errante, cadente em cheiro doce de sândalo ferido, dores de Axis. Talvez por isso os sorrisos tristes, sorrir de dores belas e raras, dores pérolas que não sabia bem se amadas ou odiadas. Sabia-as Alma, desejando-as como sóis.
Ia guardando uma a uma, delicadamente. Guardava-as às vezes tão fundo que doíam quase como no longe em que haviam nascido. Dor e cura, insolitamente cúmplices. Ungia-se desses cheiros-palavras de dor sobre dor. Um ir-sem-fim-de-ser-sem-fim. Depois as prendia túrgidas até a calma, que vinha longe, longe... longas horas de viver Axis.
Um tudo intenso, gritante, que não era dor de sofrer. Quis ensinar seu saber pequeno da dor quase alegre, e mostrava-se clara, anelante dos auto-olhos de ver. Existiam, sabia. Mostrava-se esperando um ver que era ver-se, Alma-espelho. Névoa de Axis, veria? Mostrava-se esperando-lhe quieta as luzes-palavras dos olhos. Dores ainda, não sem sofrer.

terça-feira, junho 12, 2001

Luz forte de água iluminada, chuva de ver e ouvir. Estranha e bonita. Axis Alma perto grande, iluminando-se. Vozes fortes leves, mais canto do que grito, sorriso e vôo, dormir medo e acordar salto. Alma vasta rarefeita espalhada por mundos muitos, tantos que só o olho contava.
(Sabia sempre o olhar de Axis, e era sempre sempre. Silêncio escuro oculto imóvel Axis vigilante. Ainda assim pedia luzes, Alma-sede urgência, criança de temer nãos.)
Agora era imagem, e quase olhava. Quase porque temia olhar forte, este de deixar marcas de urgência. Mas agora era imagem, sabia. Axis imagem e verdade trazendo mil cuidados doces claros imobilizantes de tão finos. Alma sorrindo quieta, depois lenta. Axis caminho de aprender a andar.

segunda-feira, junho 11, 2001

Ouvir era ouvir-se... ouvir-se... ouviste, Axis? Silêncio... Alma muito acordada, olhando em volta. Silêncio de não falar, guardar medos antes expostos, asas antes abertas. Noite e chão de muitos caminhos longos hesitantes. Não lhe pertencia o voltar, e o seguir era múltiplo monótono nevoento, de tantas vidas. Buscava um grito, ecos de Axis, vozes novas de vôo e não de chão. Noite de quietude clara calma cálida e tudo de sonho, abismo de si e de susto. Névoa e Axis todo olhar. E ver, e ver era ver-se... ver-se... verter-se pó e sonho, palavras, olhos portas comportas de transbordar. Axis sede e não, incognitude de olhar abismo, imóvel, oculto em luzes como quem venda os olhos.
Seguiu-o Alma, sabia-se espelho. Vivo e limpo de ser e dizer. Pensou-se espelho de olhar e mostrar Axis-voz de silêncios muito velhos. Pensou-se chamado e apelo, toque e grito, voz de acordar como Axis. Era Alma somente, murmuro débil, chuva de ver, de ser, não de ouvir. Pensou-se lua. Era pedra.
Quase dia, ainda escuro. Ainda silêncio em silêncio Axis. Via-o música e riso, ainda, mas era Axis-silêncio. Silêncio e cansaço, cobrir abismos e mundos e o tempo e sangue e fleuma muito estanques discerníveis inalcançáveis, e cansaço.
Gritou Alma um grito de querer doce triste calmo. Movia muito um dizer perplexo, descrença no imóvel, silêncio de sem voz. Gritou cansaços e já era tão Alma que de pequena só se lhe sabia o grito. Até calar grito e sonho.
Amanheceu, sono frio e trêmulo. Sacudir de pó e sonho. Caminhar sob olhos ocultos e fé calada. Espera nômade chuva de ouvir.

quinta-feira, junho 07, 2001

Via Alma o farto de palavras que era Axis, chuva de ouvir. Sabia-se espelho liso vazio de moldes e molduras, e eram-lhe as palavras como luzes e sombras. Alma imagem viva, vívida, e sombras e sonhos e sons. Axis-lugar. Palavras trazendo silêncio...

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O teu silêncio fala. Mais do que as palavras, talvez. É a mágica, o inexplicável que tanto se explica sem que a pergunta sossegue. O que é que faz nascer a afinidade? Como se fosse possível saber os porquês de entender silêncios, pobres de nós que nem realizamos o entender olhares.

Talvez seja o gesto recíproco de olhar para ver, mais do que para ser visto. Uma surpresa ágil de curto-circuito, luzes soltas profusas . Um disparo ruído de microfone que capta seu próprio som amplificado. Fluir. Captar-se amplificado. Mover oposto de fugir.

Talvez seja mais que o gesto, seja a freqüência igualdade de força e estatura.. Palavras indispensáveis sabendo-se insuficientes, humildes, cedendo lugar ao silêncio... shhh...