quinta-feira, outubro 30, 2003

(para a Raquel)
Tudo que se oferece a alguém que chega ao mundo são desejos. Desejo paz, desejo saúde, desejo alegria, desejo um monte de coisas. É tudo de valioso que temos nós, estes que mesmo não te trazendo ao mundo ajudaram a te esperar. Só desejos. Muito sinceros e doces, alguns. Mas desejos são tão pouco, pobres de nós. Um pouco importante, um pouco precioso, é verdade. Um pouco que no fim das contas te sustenta e vivifica quase tanto quanto você a nós. Quando se chega a este mundo tão antigo e cansado o choque é tão grande que a gente nunca mais se lembra do que sentiu. O que você sente? Queria que pudesse dizer porque é como se já chegasse sabendo tanto. E devia saber mesmo a diferença que faz, porque o mundo é inteiro diferente já que agora tem você. É que junto com quem chega aqui assim, de repente, minúsculo e desprotegido, vem um imenso carregamento de vida nova. De esperança nova. Queria que pudesse dizer. Queria ao menos que lembrasse, pra mais tarde contar como pode um mundo inteiro – mundos que somos todos – caber num serzinho tão pequeno. E tudo que nos oferece por querer - embora sem querer traga muito mais - são sorrisos sonolentos e gestos e gritos valentes de conquista do seu lugar. Sim, é todo seu. Bem-vinda, vidinha nova em folha.

terça-feira, outubro 28, 2003

Fuçar pastas e pilhas de papéis esquecidos é exercício quase inevitável, sintomático, quando a gente se reconcilia com a vontade/vício/missão/necessidade de escrever, depois de meses de indolência confortável e sufocante. Pois então, dessa vez foi uma folha de bloco, e rascunhada e rabiscada em caneta vermelha a crônica de dois momentos reais transformados no texto em um. Momentos tocantes de tão simples, e talvez por isso mesmo tão marcantes.
Antes: o meu Word não conhece ‘rabiola’. Perguntou se não era rubéola. Tentei explicar a ele que o que eu chamo de rabiola é aquela linha pendurada nas pipas (papagaios?), cheia de tirinhas de papel colorido, sem a qual a pipa não pode voar, ao menos não do jeito que a gente espera que ela voe. ;-)

Finzinho de tarde quente lá fora. Embolada no fio da rede elétrica, bem na frente da janela, uma rabiola esquecida, há muito desgarrada da pipa para a qual fora feita. Agitava-se um pouco com a brisa.
-Mãe!
A mãe olhava para fora, absorta. Ficava assim muitas vezes quando aflita. Mar revolto sob serena superfície. Talvez não olhasse coisa alguma, e o olhar fosse daqueles que atravessam as coisas aos giros, retornando depois para dentro. A filha observava decidida, inquisidora, insistente, forte como só se é antes dos dez anos de idade. Era a mais suburbana das cenas, porque só no subúrbio é concebível rabiola embolar na rede elétrica. Mas nenhuma das duas pensava nisto. Não conscientemente.
Também não pensavam na solidão, nos mundos inteiros que inter-representavam, ou no tudo que se pode ou se deve ser para alguém. A mãe pensava na vida. A filha pensava na mãe.
-Mãe! Você ta nervosa?
-Tô, sim, filha. Mas já passa.
-Mas por quê?
Inquietação é coisa que não tem porquê, no fim das contas. Ao menos nem sempre tem. E nem merece. Algumas vezes ela é assim, incógnita. Chega e se instala sem maiores explicações. E ali reina, flagrante e inexplicada. E sob ela é que a gente é tomada de um tal desinteresse pelo controle do próprio destino que acaba arranjando mais e mais formas de se inquietar. Sim, prolifera-se, solo fértil que é a gente que se entende frágil. E se viver dá um trabalho danado, dá também prazer... e dor, e riso, medo e desejo, e sonho... e inquietação.
-Nada demais, amor. Umas contas aí pra pagar...
Outro dia teve um sonho, a mãe. Falava a uma platéia numerosa e interessada a respeito do seu melhor projeto de trabalho. Falava brilhantemente, avaliou. Repentinamente a assistência começou a se retirar, em grupos, feito líquido escoando do jarro que quebrou. Acordou entre lágrimas e inquietação inexplicada. O problema é o futuro, sempre... mas por quê?
-Feliz é a Wanda, né, mãe? Ela não tem contas pra pagar.
Só tem inquietação quem tem sonhos. Mínimos que sejam. A Wanda não os tinha, de fato. Doente mental, morando na rua, perambulava desde sempre pelo bairro. Conhecida de todas as crianças e da maioria dos adultos da vizinhança, agora ocupava nesta pequena família o inusitado posto de símbolo. Símbolo do que não lhes faltava, das dores que não tinham, dos sonhos que ainda – e sempre – podiam cultivar.


Felizes os pais aprendizes, e seus filhos tanto mais sábios quanto mais jovens.

segunda-feira, outubro 27, 2003

Ando investigando a vida de Dhea. Nada contra um pouco de mistério, mas cabe a todo e qualquer personagem, penso eu, o dever mínimo e irrevogável de dar-se a conhecer ao menos ao seu autor. Personagens moram nos autores sem pagar aluguel, nunca por pouco tempo, porque nunca é rápido que ficam prontos para ir embora. A maioria fica pronta um dia. Então vai, não sem deixar marcas pela casa, de desenhos a lápis de cor pelas paredes a gravações a canivete nas colunas. “Fulano esteve aqui”. Como se pudéssemos esquecer.
Dhea não. É caprichosa, e foge e se mostra. Não me permite esquece-la, nem toca-la. E zomba de mim, porque sabe que há coisas que ela entende e eu não. Às vezes aparece no meio de um pensamento que nem precisava dela. Às vezes some no meio de uma conversa lenta, difícil, atravancada, mas tão necessária. Ela não é má, é só inconseqüente.
Então passei a espiona-la. Vasculho ruas e praças em mim à procura de pistas. Interrogo meus sonhos, lembranças, idéias. Examino todas as imagens, ouço todos os ruídos. Trabalho incansável, de frutos escassos, mas tão belos. Dhea é fascinante, e sabe disso. Às vezes imagino que ela sabe sobre a minha investigação, e se diverte. Às vezes acho que ela também me investiga, e que talvez saiba mais sobre mim do que eu sobre ela. Talvez saiba mais sobre mim do que eu mesma.
Claro que é assustador. Mas o que é escrever senão coragem extrema, ou talvez loucura? Loucos não se assustam, ao menos não com o que é assustador. Então prossigo, serena e decidida. Em breve terei um dossiê completo. Ou incompleto. Sobre Dhea. Ou sobre mim.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Outro texto esquecido... este do caderno vermelho (é, eu reli todo o caderno vermelho, sim). Engraçado um texto esquecido no caderno vermelho, porque nele é que eu escrevia os textos que não queria esquecer, ou aqueles que precisavam permanecer lembrados. O texto me lembra Dhea, a minha personagem em eterna gestação, nunca nascida. Ainda. Só lembra, porque há detalhes muito diferentes das características dela... será que esse afluxo repentino de coragem, que me fez voltar a esta página, também me trará Dhea de volta? Não percam os próximos capítulos. ;-)
Era como uma viagem, ou como uma chama que acende ou apaga. Um sair ou entrar em si, e o mundo ficava tão pequeno ou tão grande que nem tinha importância. Havia estado dentro do espelho, uma vez. Uma vitrine tão bonita e colorida, de uns luxos estranhos, mas era só o espelho o que via, infinito. A viagem do olhar não conhece obstáculos, então vai-se onde se quer, quer exista, quer não. E ia. E eram sempre lugares muito bem escolhidos, de clima ameno e cheiro bom, luzes suaves e silêncio, e nenhuma dor. Poderia passar dias em cada um desses lugares, mas raramente conseguia fazer com que a viagem durasse muito tempo. Havia a vida real, pessoas reais, sensações reais. O frio da rua, o abandono, a fome, o não.
Não parecia ter mais do que dez, doze anos. Tinha mais, não sabia ao certo quantos. Não sabia ao certo muitas coisas, talvez nada. Mas isso era tão pequeno ou tão grande que nem tinha importância.

Porque será que eu sempre termino os textos do mesmo jeito que eles começaram? Músicas são assim quase sempre, terminam no mesmo acorde... será que é isso? Ou será essa sensação de que o final do texto não chega nunca? É... não chega nunca. Que bom.

quinta-feira, outubro 23, 2003

(Para o anjinho)
Existe lágrima boa, sim, menino. Olha aqui, se é verdade mesmo que existe o bom em tudo que é ruim, que existe o ruim em tudo quanto é bom, isso ninguém me ensinou, não. Nem a vida, ensinadeira feroz. Nem ninguém, nem coisa nenhuma. O que sei, de um saber claro igual à lua cheia – tenho pra mim que se a lua fosse de saber em vez de brilhar ia ser um saber imenso, de tanto tempo que ela avista tanto lugar – lá em cima... Pois é, sei de um saber claro igual aquela lua cheia lá em cima que existe lágrima boa, sim. Presta atenção, menino, que quando a alegria é muito funda, muito quente, muito forte, grande de encher a alma inteirinha, pode até jorrar pelos olhos, viu? Feito nascente. Não, feito cachoeira. Não, feito chuva. É isso! Lágrima boa é feito chuva. Até sem cheirar tem cheiro de chuva num verão de antigamente, a terra quebrada de seca bebendo, bebendo como bebessem todas as sedes do mundo. Ávida, a festa do alívio. Até sem ouvir tem a música dos pingos no teto ou da voz querida, voz-surpresa que chega ouvido mente alma peito olhos adentro, ordenando despejo a dores e lágrimas boas. Muito quente, muito forte, tanto que não se pode esquecer nunca. Também tem o escorrer apressado e sem fúria, calmo e reto como uma bênção, aquela que faz tanto tempo se pede. E mesmo assim se duvida. E mesmo assim se sonha e sonha. E mesmo assim – ó homens de pequena fé – não se espera.

quarta-feira, outubro 22, 2003

Acho que existe mais de uma liberdade. Ora, pra mim liberdade é ir onde quiser. Mesmo assim, mais de uma liberdade, pelo menos uma de dentro e uma de fora. Mas livre não é quem pode sair? Não somente, para entrar precisa liberdade, e não ser livre dentro é não ser livre. Tipo na casa da gente? Tipo no de dentro da gente. Ser livre para ir a todo lugar dentro de mim. Ah, dentro de mim é tudo uma coisa só, acho que não tenho lugares. De onde vêm os seus sonhos? Ué, igual todo mundo, diz que tem o inconsciente, né? Taí, lugar. Ora, lugar? Pois saiba que ‘onde’ é advérbio de lugar, então se é ‘onde’ é lugar. Ih, aqui dentro deve ter cada lugar... E você os visita todos? Para quê? Não sei, visita? Não, que bobagem. Deve ser bom se visitar todo. Acho maluquice, sabe o médico e o monstro? Sei, a coisa do lado mau. É, to fora. Do lado mau? Claro, to fora. Todo mundo ta, ele é que fica lá dentro. Cruz credo, visitar pra quê, então? Pra conhecer. Só quero conhecer coisa boa. É questão de tempo, ele sempre acaba saindo. E sai como? Deve ser pelos olhos, que nem nos filmes de monstro. Sei não, acho que olho só serve de entrada. Então pelas mãos. Palavra? Pode ser. Imagem? Talvez. Som? Tudo, qualquer coisa. Boa? Pode ser ruim também, tem que escolher. A gente escolhe sempre? Não, sempre não, só quando tem liberdade.

terça-feira, outubro 21, 2003

Voltar a qualquer coisa produz reencontros de todo tipo (que bom!). Esse foi fácil, porque textos são sempre mais fáceis que pessoas. A folha estava bem aqui, escrita a lápis, ao lado do computador, na pasta de contas a pagar (Lugar ideal, esse? Também acho.). Esperou pacientemente tantos meses que nem me lembro. Sem data, sem contexto, quase sem identidade:
“Havia uma tristeza nova agora. Reluzente e fria, feito cristais de gelo. Tristeza legítima, cheia de verdades que escorriam vívidas, encharcantes. Verdade e tristeza eram a mesma coisa, finalmente. Havia agora algo de fato que contrastasse com o quente das lágrimas no rosto, que também escorriam vívidas, encharcantes. Tristeza quase construída, já que estava – sabia, sabia sim – sobre um alicerce débil de decepção porosa. Mas era, a tristeza. E a amava.
Podia olha-la de todos os ângulos impossíveis. É que os possíveis não precisam ser olhados, eram conhecidos e sabidos como se sempre tivessem estado ali. Talvez toda a tristeza do mundo fosse a mesma, um monstro-desespero enorme e invisível que ferisse de diversas formas com cada pedaço do corpo. Ou talvez fosse um prato de sopa quente, e queimasse diferente as quem mais ou menos decidisse se aprofundar nele.
Podia olha-la de todos os ângulos impossíveis. Caminhou então em torno de sua tristeza-prato-abandono, e sentia-se repleta dele, embora leve. Vapor. De cima contemplou o alaranjado de sua casa. E chorava-chorava, condensava, caía. E subia lenta, leve, vapor-redemoinho.
Com honestidade – é claro que não havia honestidade, que essa é coisa que não entra na gente, só sai – poderia admitir que não era importante. O motivo não era importante, talvez já o tivesse esquecido. Importante era só o”

Que coisa... “só o” quê? Nunca vou saber, não lembro nada, nada sobre esse texto. Ao menos sei que essa tristeza passou, já que não me lembro mais qual foi o motivo, nem quando. Eu ia terminar o texto para postar, mas preferi deixar o vazio. Talvez alguém que o leia sugira um final melhor do que o que eu faria. ;-)

segunda-feira, outubro 20, 2003

Tudo sempre volta. Ao menos tudo o que é real. Sempre volta. Os sonhos voltam, renovam-se os cenarios, o enredo, talvez. Mas la estao, de novo e de novo. Era incrivel ter sonhado de novo com os passaros. Com tê-los matado, ou tentado. Era mesmo um sonho horrivel, mas era estranho chamar de pesadelo porque nao havia angustia, nao havia resistência. O sonho fluia tranqüilo, soberano. Passaros semimortos, que nao reagiam. E aquela firmeza no proposito de os matar, sem vontade e sem sofrimento. Era preciso mata-los. Por quê? Nao importava, era preciso, por mais que ser preciso sem porquê parecesse insolito. Sem prazer, sem dor, sem nada. O nada fluia tranqüilo, soberano, e matava os passaros. Era o mesmo sonho, de novo, e sabia bem deles, velhos conhecidos. Passaros-sonhos, passaros-desejos, passaros-ser. Passaros-ser-o-que-se-é-e-nao-o-que-o-outro-quer. Mata-los era uma aniquilaçao imensa. Um autossufocar tao completo e tao duro que certamente nao seria capaz de faze-lo contra qualquer outra pessoa. Estranhamente eles, passaros, nao morriam. Nem viviam, ficavam ali moribundos, o tempo estagnado também. O sonho, antes e agora, terminava assim, como assumindo seu lugar de grito, de alerta, de alarme. Era preciso, é preciso salvar os passaros, e salva-los nem é assim tao heroico. 'E nao os matar, somente. Deixa-los ser, por mais que ninguém os queira ou entenda. Deixa-los voar, por mais que o vôo pareça dor. Por mais que seja tao desmedido o medo quanto o seria o nada reservado em sua morte. Deixar-se voar, deixar-se ser. A vida enquanto ha vida, o céu enquanto ha céu. Deixa-los voltar, bem-vindos, incômodos, vivos, ensurdecedores, férteis, ardentes, ousados. Fluir tranqüilos e soberanos. O passaro é maior que o sonho, e volta. Tudo sempre volta.

quarta-feira, janeiro 01, 2003

Esse negócio de esperança às vezes parece forçação de barra, né? Parece discurso de festa, parece que a gente nem leva a sério...Mas a verdade é que o ano novo começou, e a gente sabe. A vida ainda é vida... as ondas ainda são ondas - não é lindo saber que elas nunca acabam, e as que a gente não pular hoje estarão à nossa espera, sempre? Se a onda que eu devo pular é só minha, e me espera, é sinal que a esperança é um fato. Estamos condenados a ela.
Então a gente se renova sem querer, e sonha outra vez, e sorri por se saber amado, e vivo. Isso acontece porque o ano se renova mesmo é dentro da gente, sábia artimanha da evolução...
Que seja sempre assim, novo e feliz, todo ano. Que a coragem se multiplique, que o amor se derrame, que a esperança permaneça. Feliz Ano Novo!

sábado, novembro 02, 2002

É assim o outro. Esse escuro vasto, intensíssimo. Impenetrável. Sim, é verdade que mergulhamos nele às vezes, mas parecemos tão à parte ao mesmo tempo. Quem pode ver o outro por dentro? Quem pode, sem violá-lo? Quem pode entender o outro? É assim o outro, ininteligível. É assim por causa da nossa pouca força, do nosso pouco ser. Nessa fragilidade extrema e costumeira o ininteligível é sinônimo de inalcançável, de intocável. Tão perto, tão sedutoramente perto. Porque é que o outro seduz tanto, se é tão árduo? Mas seduz, e fascina, e assusta, e atrai, e esgota, e renova. Mata, revigora. E renascemos ainda menores, ainda mais longe, e talvez por isso mesmo ainda sob maior ânsia de o tocar, de o ter. De o ser. Tolice, o outro será sempre outro. Impossível tê-lo, vivê-lo. É assim o outro, esse fazedor de impossibilidades. Que terrível saber o que não somos e o que não podemos. Que terrível não ser, não poder. O defeito do outro é não ser eu.

sexta-feira, outubro 25, 2002

Ele vem, finalmente. Levanta rápida, agitada, coração quente de novo. Há tanto o que fazer. Abre as janelas ao vento e ao Sol. O Sol ainda está lá fora, incrível. Limpa, arruma, que vergonha essa bagunça. Ele vem logo, o tempo é tão pouco. O tempo é sempre pouco quando não é tempo de espera. Ele vem talvez cansado, é preciso maciez e perfume. A cama, aconchego. Ter onde ser. Incenso, tem? Ele vem, acorda logo. Ele vem talvez amargo, é preciso um doce. Aquele gostoso, que pede mais. Mais gostoso hoje, você é tão linda. Ele sempre diz linda, lembra. Linda...linda... um vestido novo? Não, aquele da última vez. Sabia última, mas pra quê falar? Perfume, o cabelo assim, como era mesmo? If I had a song that I could sing for you I'd sing a song to make you feel this way. E a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem. Que coisa antiga, meu bem. Meu bem, ele ria. Tão bonito ele rindo. Chega de sonhar, ele vem. Música, tem? Uma bem bonita, e suave, que há tanto que dizer. Falar de monstros e dragões antigos, de campos floridos, pores-do-sol vermelhos e dourados. De nuvens lentas, chuvas e arcos-íris. Ele escolhe. Talvez o silêncio. Tão bonito, silêncio de estar junto. Ele vem talvez ferido, sabe. Não tem medo, nem pena, ele é tão grande. Tem cuidado, remédio, será que adianta?Pensa que não, sente que sim. É o que importa. Não esquece de abrir a porta, daqui a pouco ele vem.

quarta-feira, outubro 16, 2002

Eu não devia ter escrito isso.
Daqui a pouco eu deito, e choro. Agora não, é cedo ainda. Daqui a pouco a luz da rua, amarela e indiferente, entra em casa, quarto e olhos semicerrados - Não estarão fechados porque dentro de mim é tão abafado, um sufoco - então eu posso chorar.
A luz semientrando nos olhos daqui a pouco forma uns desenhos dourados nos cílios. Lembra que eu criança dizia que eram árvores? De ouro as árvores, as mais perfeitas árvores de natal. Aí chega a lágrima e a luz se desmancha em cores, um arco-íris só meu. Ninguém mais vai saber. Ninguém mais vai saber.
Nem da dor. Nem do fracasso. Nem do pesadelo. Nem da morte. Nem da vida. Nem da miséria. Nem do acaso. Nem da sorte. Nem do desejo. Nem do não.
Desistir é o pior de todos os pecados.
Daqui a pouco eu deito e o mundo fica tão grande, tão imenso que pesa, sufoca e não posso respirar. Levanto e choro. A música longe parece demasiadamente alegre, e me fere. Quando isso tudo passar - e passa sempre - vai parecer tão bobo. Aí eu acostumo. Aí é como se fosse assim mesmo. É, a vida é assim mesmo. Ainda bem que eu tenho as árvores de ouro.

terça-feira, outubro 15, 2002

Talvez tenha sido há tempos. Muitos anos. Talvez a noite passada. Penso que não faz diferença porque há histórias que não têm começo nem final. Outras só têm final. O lago brilhava anoitecendo, refletindo uma lua em forma de sorriso. Lembro que pensei em como era bom a lua sorrir, independente de quanto eu e você pudéssemos chorar.
-Você é sem máscaras...
-Não sou sem mascaras todo o tempo.
-Usa máscaras pra mim, às vezes?
-Não. Você também não usa máscaras comigo, usa?
Não usávamos, e era lindo e também doía muito. Não sabíamos ainda que era dor, inocentes demais. Sabíamos um pouco, sem muita intensidade pra que não doesse mais do que pudéssemos agüentar. Na nossa opinião agüentávamos tão pouco.
- Se você fosse mergulhar, e tivesse vários lagos disponíveis...
Você riu meio de repente, como uma luz no meio da noite, e brincou:
- Eu mergulharia no menos gelado.
Veio o vento, e primeiro eu gostava. Meus cabelos se agitavam, daquele jeito que você achava bonito.
- E quanto à visão que pudesse ter ou não do fundo? – eu insistia em falar sério, sempre. Percebi seu riso arrefecendo ao olhar o fundo, invisível de noite apesar das águas cristalinas, que já se agitavam também ao vento fresco de quase tempestade.
- Se o fundo estivesse cheio de caranguejos, eu ia preferir mergulhar no que dá pra ver menos...e muitas pessoas são assim. Preferem que os outros usem máscaras, porque pra eles é mais confortável não ver os caranguejos.
Agora era eu quem ria, meio divertida, meio aflita, o barco balançando:
- Mesmo que o fundo esteja cheio de jacarés?
Tínhamos um pouco de medo agora, e era muita angústia aquela preocupação de um com o outro, e não consigo mesmo. Sufocávamos de amor e cuidado, não chorávamos por medo de fazer chorar, mas tínhamos tanta verdade que de nada adiantava. Os remos não comandavam o barco, brigavam contra as suas mãos. Mesmo assim sua voz era firme.
- Às vezes a gente encontra jacarés por aí também. Nesse caso, é melhor ver logo.
Um remo afundou. Olhei bem nos seus olhos investigando o pânico.
- Se você mergulhar num lago turvo, e depois num lago límpido, vai perceber q no lago turvo o mergulho não foi tão delicioso porque você estava tenso com medo dos jacarés – eu tinha muito medo, mas estranhamente sabia que você encontraria um jeito - você me dá um mergulho bom porque sei onde estão os caranguejos...
- Mas às vezes ver demais o fundo pode não ser confortável. Ei, eu não tenho caranguejos! Rimos um riso meio ansioso. Seus braços doíam na luta com o único remo, que acabou inexplicavelmente partido em dois. Eu me equilibrava com esforço, arregalava os olhos à procura dos seus.
- Depende do mergulhador – eu era medo e riso, tremia e confiava.
- Não sou um bom mergulhador, as pessoas me assustam. Você é uma boa mergulhadora.
O vento se multiplicava em mil jatos. Segurávamos firme, sem falar por um tempo que pareceu que jamais terminaria. Meu maior medo era que você desistisse, eu continuava e sabia que não estava fazendo mais do que manter a sua luta. Só sua.
- Então porque é que mergulha em mim?
- Porque você me assusta, mas eu não consigo fugir de você – agora seus olhos me olhavam fundo, já não importava a tempestade, o medo havia sumido - acontece as vezes. Até tento fugir, mas não adianta...
- Como das águas onde mora a sereia?
- Não sei da historia da sereia – rimos, o vento acalmava, estávamos à deriva.
- Precisa conversar mais com gente velha...
- Então espera aí que vou procurar uma velha – nos abraçamos de um jeito único, perdidos um no outro, e esperamos. A noite foi longa, o vento vinha e nos assombrava, assobios de fantasmas da infância. Choramos em silêncio, tentávamos parecer seguros. Não ia durar para sempre. Não durou. Disso tudo a lembrança mais forte é a de que estivemos juntos. Sempre.

domingo, setembro 08, 2002

Do rádio vinha o som da voz da cantora: "Deixa eu tocar sua alma, deixa eu ver sua alma..." e ele imaginava - doce presunção dos ouvintes e leitores apaixonados - se alguém mais além dele mesmo entendia aquilo. Já sabia que o que vale nas pessoas é a alma, mas é também a parte mais difícil de tocar. Ver é pra olhos treinados, mas tocar é pra mãos de sorte.
No aquário ao lado do rádio os peixinhos pareciam indiferentes à musica, às almas (peixe tem alma?) e a todas as suas reflexões. É isso - pensou - as almas são como peixes. Exibidos e fugidios. Sempre se mostram por querer, mas quase nunca se deixam tocar. Talvez tocar, mas não reter. Talvez reter, mas por encanto, nunca por força. Por força só se as fere.
Amar alguém é também entender o escorregadio de sua alma-peixe. Olhar sem tocar, tocar sem reter, reter sem força por um encanto que nem sabemos assim tão encantador. É tentar e ver. Expor-se ao vexame da fuga do peixe, aquele vexatório do peixe escorregado-agarrado-desabado-reagarrado-reescorregado-perdido-chorado, que atemoriza cento e um por cento dos mortais. É ter coragem de tentar. Ter coragem de tocar, ou ao menos olhar. Em qualquer caso, olhar, ainda que sem a menor esperança de possuir.

quarta-feira, setembro 04, 2002

Eram asas, sem dúvida. Asas de anjo? Toda asa grande lhes parecia de anjo. É que não deve haver nada maior do que um anjo, imaginavam. Tinham asas enormes, que viam imóveis.

Serenidade imensa e despropositada assim era ainda mais despropositada quando rugiam feito leões. Talvez algum dia um anjo tenha desejado ser leão, então rugiu. Era desse jeito que se entendiam.

Faces humanas, e tinham olhos também. Serenidade. Ainda que fossem capazes de se desesperar, seria sereno o desespero, decerto. Eram assim os olhos, e grandes, e claros. E se olhavam na alma com tamanha força que a alma sentia vergonha de ter um corpo.

Interrogativos os olhos, inquisidores de si e dos outros. Belos. Apavorantes no não ter respostas que lhes assolava. Sedutores no querer respostas, e as queriam tanto.

No fundo amavam as perguntas também. E eram tantas que pareciam feitos delas. Elas os alimentavam.

Garras e olhos, rugido e asas, eram como um fim chegando. Talvez demorasse. Era como se ao fim a última resposta os fosse libertar. Seguiriam então destinos únicos. Um-só-em-si. Um-cada-um. Mas agora estavam juntos.

Estavam juntos, inegável. Talvez parados frente a frente, ou caminhando lado a lado. Talvez seguindo... não, ninguém conduzia. Talvez atraindo. O fato é que estavam juntos, e por enquanto era quase claro o que diziam garras e olhos, rugido e asas: "Decifra-me ou te devoro.".

sexta-feira, agosto 16, 2002

"Se eu fosse cavalo só comia flor.". Manhãzinha preguiçosa, de dentro do carro pouco interessava ver além do estritamente necessário. Mas era fato, lá estava o cavalo, plácido e indiferente, fazendo sua refeição matinal: capim.
"Por quê, filha?", questionei entre risadas, ainda mais de prazer que de achar graça. "Capim é muito feio". Felizes seríamos, filhinha, tão felizes, se pudéssemos ter somente o belo como alimento. Mas na hora não era nisso que eu pensava. Não tinha importância ali se falávamos de cavalo, menina, unicórnio ou duende. Não tinha importância se comer era para o corpo, os olhos ou a alma. Importava só o espasmo de liberdade incontrolável que nos permite aos dez anos escolher o destino de gente, bicho e planta.
Estranho isso do inconformismo. Sem perceber eu naquela hora pensava nas escolhas que eu, adulta incurável, já não tinha. Olhava a onda de estupefação na qual eu virava cambalhotas por causa daquele absurdozinho. Onde já se viu cavalo escolhendo comida, mesmo que cavalo-marionete da imaginação de criança? Onde já se viu querer só o bonito, se nessa 'adulteza' em que todos acabamos caindo o bonito é uma conquista tão árdua? Tornei-me de novo fã daquela garotinha, de todas as garotinhas, inclusive daquela que ainda sou aqui dentro, em algum lugar.
Quando criança eu li sobre o moço que queria consertar o mundo, e pensou as abóboras, grandes, majestosas, lá no alto da árvore no lugar das insignificantes jabuticabas. Era a mesma coisa agora, e para muito além do absurdo eu entendia que só é capaz de ousadia assim quem é muito, muito livre.
Depois que a gente põe uma pessoinha assim no mundo fica meio escravo genético dela. Parece que cada célula da gente se exalta, entristece, assusta, refestela nela, conforme o que salte dela na nossa direção. Por causa disso é que naquela hora eu ria inteira olhando o cavalo que, coitado, só sabia comer capim; e olhando a menina que já sabia - e agora me ensinava - que fosse imaginando, suspirando, querendo, fosse como fosse, ainda seria possível sentir nessa vida um gostinho de flor.

terça-feira, julho 02, 2002

Ela continua lá, animal altivo e imóvel olhando para cima. Só nuvens. Ela já entendeu, mas finge que não. Elas não irão embora. O vento não virá e não abrirá as nuvens, não abrirá nada. Fecharam-se feito conchas.

Só se abre uma concha
à força matando a ostra,
Deus me livre.
Deus me livre de violar você,
meu amor.


Ela pensa. Dói. Se ao menos pudesse tocar as nuvens, movê-las. A lua está ali logo atrás delas, tão perto. Quer gritar. Só os machos uivam para a lua, por isso têm tanta força na voz. Só os machos caçam, por isso têm tanta coragem e medo. O halo de luz está lá visível através da concha, digo, das nuvens. E estará lá ainda, mesmo que as nuvens se adensem muito, mesmo que a tempestade venha, mesmo que ela não sobreviva. Sobreviverá, é certo. Falta pouco para amanhecer.

Amanhecendo a lua aparece
do outro lado do mundo.
As nuvens não vão junto.
Felizes aquelas que estão lá.
Podem tentar, ao menos.


Quando o sol chegar ele também estará oculto, e fará frio. Ela não morrerá de frio. Ficará quietinha e esperará. De noite tem a lua de novo. Talvez com menos nuvens agora.

segunda-feira, julho 01, 2002

- Não é babuíno então. É mandril.

Fausto tagarela do outro lado da linha e eu à distância examino Dirce, que não percebe. Castanha e macia, os pêlos sedosos que clareiam em torno do nariz vermelho. A cara é de um colorido suave - se fosse macho seria berrante, ainda bem - igual ao da bunda. Ela é tão bonita. As fêmeas de mandril menstruam feito as mulheres e não têm tempo certo pra acasalar. Que mulher. Mulher?

- Mas não é a mesma coisa?

Ela deveria ser bem menor, pelo que Fausto diz. Mas é grande, quase do meu tamanho. Ágil, doce, forte.

- Não. É a mesma família, mas outro gênero. Ô Cláudio, eu ouvi direito? Você tá dizendo que tem um mandril em casa?

- Eu? Não, imagina. Tenho que desligar agora. Depois a gente se fala.

Dirce continua a examinar os CDs, o olhar doce na direção da cozinha de vez em quando.

- Quer ajuda, amor?

Amor. Amor. Será amor? Ela é perfeita, é verdade. Tudo o que eu havia sonhado, menos um detalhe. Não é humana. Mas fala. Escreve, lê - romances - e adora música. Passamos nossos dias (desde quando?) respirando cumplicidade e sexo. Insaciáveis, ilimitados. Felizes. É perfeito. Não. Tudo seria perfeito se não fosse esse pânico que me toma quando penso em falar de Dirce para qualquer pessoa, mesmo as mais próximas. Aquele remorso, aquela culpa quando ela chora baixinho ao se esconder na área de serviço se chega uma visita. Se ela - raro, toma cuidado extremo - faz algum barulho e a visita pergunta o choro dura mais, porque eu tenho que dizer que é o cachorro.

É obsceno. Ela é obscena e me fascina. Acho que algum sonho insólito me escapou das profundezas e materializou ali todos os meus desejos, todas as fantasias, até as mais loucas. Ninguém poderia ser mais feliz. Ela me invade e me domina feito uma droga.

Ela vem até a cozinha. Eu sabia que viria. Eu queria. Sinto suas mãos em torno do meu corpo, seu hálito em minha nuca. Será que um dia eu terei coragem? Talvez não, mas o que importa agora?

sexta-feira, junho 28, 2002

Olhava através da janela... e do ar, e dos pássaros, e árvores, e nuvens, e via. Via nítido, embora não compreendesse. A sensação era de iminência. Riu. Aquilo era ridículo. Iminência não era sensação que se tivesse. Mas como chamar aquele suspiro, aquela vigília? Que nome dar a isso que se parece com o que sente o cais quando o barco se aproxima?
Ouvira falar uma vez de um barco não sei onde que chegou com tanta força que quebrou o cais, pensou então que ser cais assim passivo e imóvel era muito doído. Quando se é cais tanto o partir quanto o chegar do outro são intocáveis. Não se pede e não se nega a chegada. Não se apressa e não se adia a partida. Então é dor o tempo todo, dores diversas. A de chegar é medo, a de não chegar é solidão. A de não partir é culpa, a de partir é saudade. De tanto não pedir e não negar nada acabou aceitando as dores todas.
Desejara uma vez ser barco em vez de cais. Desejara na sombra e no silêncio da maré baixa. Seria o mais belo e preciso dos barcos, que chega e vai embora somente no tempo certo. Um barco como nenhum outro. Temeu e preferiu esquecer. Sentiu alívio pela sombra, pelo silêncio da maré baixa, e olhou de novo através da janela, do ar, dos pássaros...

quinta-feira, junho 27, 2002

A primeira metáfora havia sido do Drummond. Treze, quatorze anos, talvez. Atravessara-lhe de uma só vez.

"Como pode existir, pensou consigo..."

(era o marciano que pensava, o que encontrou o Drummond na rua)


"...um ser que no existir põe tamanha anulação de existência?"


A anulação da existência ficou ali entalada, talvez para sempre. Talvez porque até ali - e não tinha ainda esse pensamento pensado, só sentido - existir fosse a própria anulação, uma vez que era um existir passivo e então parecia sinônimo de esperar.
Esperar.
Coisas e pessoas, momentos, iniciativas, coragens. Esperar. O fim do dia, o fim da semana, o fim do mês, o fim do ano... O fim.
Esperar o tempo certo. 'Tempo' e 'certo' não combinam se o assunto é vida. Nada mais incerto que o tempo.
Odiou o marciano e o Drummond.


Não seria a única, esta. Viriam outras. Foi-se tornando lenta e progressivamente mais vulnerável a elas. Até a escravidão, quase consciente, quase voluntária. Persiste ainda a anulação da existência atravessada lá dentro. Talvez ainda hoje seja este o motor de todas as outras metáforas. Anular a anulação.
Falar, ouvir, rir, chorar, correr, atirar-se, morrer, acabar, recomeçar. Fazer certo o mais incerto dos tempos - agora. Amar o marciano e o Drummond.
Existir, ou ao menos tentar.